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Monday, October 25, 2021

Turismo LGBT+ enfrenta os desafios da pandemia com presença on-line e opções que vão além do circuito ‘baladeiro’

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RIO – Até 2020, os principais pacotes de viagem oferecidos pelo setor de turismo LGBT+ no Brasil eram os do circuito de paradas gays pelo mundo ou para destinos de badalação, impulsionados por festivais como os de música eletrônica. Para representantes deste segmento, a pandemia trouxe uma lição: é ampliar horizontes para além do clichê “baladeiro”.

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No ano passado, três operadoras voltadas para este público foram abertas no país, segundo a Câmara de Turismo LGBT. Uma delas é a Diversa, que começou a funcionar em julho. Segundo Marcelo Michieletto, coordenador de produtos da empresa, a ideia inicial é buscar opções dentro do país, já que, diante da Covid-19, viajantes têm optado por destinos perto de casa:

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— Foi um ano muito difícil, mas serviu para repensarmos o setor, que estava muito acomodado em ofertar esse tipo de viagem de evento, para as paradas gays, mas também de festas — ele avalia. — Estamos falando de um público diverso, que também faz viagens de aventura, de lua de mel e em família, e o que procuramos ofertar são esses programas, em locais que sejam verdadeiramente inclusivos, não apenas para o público gay, mas para trans, bi, todas as letrinhas.

Segundo uma pesquisa da Associação Internacional de Turismo LGBTQ+, 66% pretendem viajar assim que a pandemia estiver mais controlada, número acima da média da população geral, que é de 58%. Mas, com muitas fronteiras fechadas e o aumento de casos da Covid-19 no Brasil e no mundo, a previsão de retorno é para o segundo semestre deste ano, aponta Otávio Furtado, diretor de Turismo da Câmara LGBT:

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— Temos que ver como ficarão a cobertura da vacina, o número de casos, essas novas variantes. Ainda temos muitos dúvidas — diz. — Mas estamos nos adaptando, conseguindo fazer eventos on-line.

Um dos eventos que buscam o “novo normal” é o World Pride, marcado para acontecer este ano em Copenhague, na Dinamarca, entre os dias 12 e 22 de agosto. O evento bianual acontece em uma cidade diferente a cada edição e promove debates e eventos culturais que celebram o orgulho e a identidade LGBT+.

Por conta das restrições de viagem, o evento será híbrido, parte presencial, parte virtual, com programação nas câmaras de turismo LGBT+ de diversos países, incluindo o Brasil, e transmissão on-line.

O arquiteto Nilton Ferreira, de 55 anos, pretendia ir ao evento e depois emendar com outras pequenas viagens pela Europa. Adiou os planos e vai acompanhar tudo virtualmente:

— Além de as fronteiras estarem fechadas, não me sentiria seguro para viajar, pegar avião, ir aos eventos. Vou conseguir acompanhar por aqui mesmo os principais debates e agora me programo para a próxima edição.

na agenda

Segundo Aron le Fèvre, diretor de Direitos Humanos da World Pride Copenhague 2021 (confira entrevista abaixo), não há a possibilidade de o evento ser cancelado:

— Estamos nos organizando para incluir o máximo de pessoas pelo mundo que não poderão ir presencialmente — conta ele. — Muitas coisas que aconteceram em outros anos, como festas e aglomerações, não teremos, mas o evento será seguro para quem for, respeitando as medidas impostas pelas autoridades.

Aqui no Brasil, eventos tradicionais do setor LGBT+ foram adiados para o segundo semestre. Um deles é o H&H Festival, que vai ser realizado num cruzeiro pela primeira vez, com saída do Porto de Santos em dezembro. Outro é o Joy Festival, entre 1 e 4 de julho, em Búzios. A tradicional Parada Gay de São Paulo ainda está sem data definida. No ano passado, o evento não aconteceu, mas foi lembrado pelos organizadores com o “Global Rainbow”, intervenção da artista de Porto Rico Yvette Mattern, que jogou luzes sobre Avenida Paulista.

Aron le Fèvre Foto: Divulgação
Aron le Fèvre Foto: Divulgação

Em passagem pelo Rio em janeiro para fechar parcerias locais, o holandês Aron le Fèvre, diretor de Direitos Humanos da World Pride Copenhague 2021, falou sobre as expectativas em relação ao evento deste ano e o público LGBT+ brasileiro.

Como estão se preparando para fazer um evento seguro em meio à pandemia?

Esta é a maior preocupação mesmo. O que nós faremos é seguir as recomendações das autoridades, então, vamos manter o distanciamento social, a higienização e a sanitização e obrigar o uso da máscara. Nossos eventos também serão espaçados por toda a cidade, o que vai evitar aglomerar muita gente nos mesmos locais. E, claro, vamos ter transmissão de tudo ao vivo, para o mundo inteiro.

Cidadãos de diversos países estão proibidos de ingressar em várias nações da Europa, incluindo os brasileiros. Além da transmissão on-line, o que mais será feito para incluir essas pessoas?

Estamos fazendo parcerias com câmaras de turismo LGBT+ e embaixadas para a realização de eventos também fora da Dinamarca. No Brasil, a ideia é promover alguns em São Paulo e Brasília, provavelmente.

O que podemos esperar da World Pride deste ano?

Teremos a programação completa em abril, inclusive dos eventos que vão acontecer em cada cidade ao redor do mundo. Mas vamos manter a nossa identidade de diversidade, discutindo temáticas importantes para o público LGBT+, mas também celebrando o orgulho. Este ano, os EuroGames (evento esportivo LGBT+ europeu com atletas de 29 esportes) acontecem simultaneamente, então, esperamos não apenas um ótimo ambiente, mas também uma interação com esse público, o que acho que é muito positivo para esse debate sobre diversidade, essa mistura que vamos encontrar no país.

http://oglobo.globo.com/

O Brasil tem sediado há alguns anos a maior parada gay do mundo. Qual a expectativa de participação do público daqui no World Pride?

Temos um público enorme de brasileiros, e nossa expectativa é de uma grande contribuição de vocês. Há muitas discussões a serem feitas sobre o país, que conta com boa receptividade e infraestrutura nas grandes cidades, mas que ainda tem desafios para vencer em outros locais, principalmente mais para o interior. Há também uma questão política atual de intolerância e de violência, mas é um país que tem muito a oferecer.

O World Pride poderia acontecer aqui no Brasil?

Acredito que sim e espero, na verdade, que seja em breve. É um evento também importante para o turismo e a economia local, então, acho que seria um sucesso em todos os níveis. (Carolina Mazzi)

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