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Friday, November 26, 2021

Sobre a arte de governar

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Fabio Giambiagi Foto: O Globo



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No diálogo com meus colegas, costumo ser criticado amistosamente pela minha tendência a “fulanizar” as análises sobre política. Ora da parte dos mais velhos, treinados no campo do determinismo histórico, ora por parte dos mais novos, que por vezes tendem a achar que o mercado sempre domestica o processo decisório, sou objeto de questionamentos quando tendo a destacar a força dos nomes.

Embora ciente da importância dos processos históricos e conhecedor dos condicionantes impostos pelo mercado, continuo pensando que o nome do Presidente faz a diferença em muitos países – para o bem ou para o mal.

Muito já se escreveu sobre como os EUA se beneficiaram pelo fato de terem tido entre os “founding fathers” uma das mais extraordinárias gerações de políticos surgidas num único país mais ou menos na mesma época. O país não seria o que é hoje se na origem não tivesse contado com a sabedoria e a habilidade de gente do quilate de George Washington, Alexander Hamilton, James Madison, Thomas Jefferson, Benjamin Franklin e John Adams.

Esses homens tiveram um misto de liderança, percepção acerca das necessidades do país, intuição política, flexibilidade e a dosagem certa entre princípios e capacidade de fazer concessões, requerida para que um país avance.

Com o tempo, outros atributos passaram a ser necessários para ser um bom líder político de um país. O debate entre Kennedy e Nixon trouxe, há seis décadas, a irrupção do domínio da imagem como um elemento chave para a sedução do eleitorado; e, naturalmente as questões associadas à gestão se tornaram cada vez mais importantes, a medida em que as sociedades e o mundo se tornaram mais complexos.

Antônio Carlos Magalhães, em matéria de política um PhD, dizia que “a arte da política consiste em saber dar a cada um o que ele espera de você. Alguns querem um emprego. Outros querem dinheiro. Há um terceiro tipo, que busca poder, prestígio, até um carinho.

Se você confundir as demandas e oferecer dinheiro a quem quer carinho, ou poder a quem quer emprego, arrumará um inimigo”. Noves fora a dúvida do que pode significar “dinheiro” dependendo do contexto, é por isso que governar é uma arte. E é por isso que F. H. Cardoso denominou de “A arte da política” o seu primeiro livro escrito com reflexões sobre o tema após sair da Presidência.

Nele, o autor escreve: “O Presidente precisa ter equilíbrio para perceber que as obstruções, emendas e negaças do Legislativo muitas vezes propiciam entendimentos que melhoram os resultados. Nem sempre, é verdade. Neste caso, cabe ao Presidente bater o pé, dentro das regras do jogo… É por isso que nas democracias a luta é contínua e as melhoras são incrementais”.

O exercício da liderança política de um país requer uma combinação de capacidade de persuasão, ascendência sobre os atores políticos, inteligência emocional no mais alto grau, reconhecimento das limitações do cargo, potencial de sedução do eleitorado, charme, atributos gerenciais, disposição ao diálogo, raciocínio estratégico para saber aonde se quer chegar, domínio da tática para definir onde se pode ceder, conhecimento dos diferentes aspectos da gestão pública – com ênfase na saúde, na educação e na segurança – e – last but not least – uma fonte inesgotável de paciência para os avanços e recuos que fazem parte do dia a dia ao longo de um mandato.

Esta é minha primeira coluna neste espaço que o jornal me abriu. Aqui falaremos de economia. Quem escreverá é um tecnocrata que aprendeu ao longo de quase quatro décadas de exercício da profissão que o economista pode palpitar, mas quem comanda uma Nação é a política.

Da interação entre esses dois campos depende o futuro dos países. É por isso que este primeiro artigo desta etapa trata desse assunto, a caminho de um ano chave para o Brasil (2022). Tentarei dar minha modesta contribuição, neste espaço, para que o leitor entenda os meandros dessa interação.

Boa viagem a todos nós nessa jornada.

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