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Secretário de Saúde do Rio diz que zerar a fila de exames e cirurgias na capital custaria R$ 2,5 bilhões

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Um dos principais nomes do prefeito Eduardo Paes num ano de pandemia, Daniel Soranz diz que prioridade é equacionar contas e melhorar atenção básica

Felipe Grinberg

12/02/2021 – 04:30

Daniel Soranz, secretário municipal de Saúde do Rio Foto: Brenno Carvalho / Agência O GLOBO
Daniel Soranz, secretário municipal de Saúde do Rio Foto: Brenno Carvalho / Agência O GLOBO

RIO — O médico Daniel Soranz, secretário municipal de Saúde, fala sobre o desafio de lidar com um passivo de 450 mil pessoas na fila por exames ou cirurgias, que foram deixadas de lado diante da emergência da Covid-19. Para zerar isso, seria preciso ter hoje R$ 2,5 bilhões, que não estão disponíveis. Outro problema é o aparelhamento da pasta: “cargos estratégicos estavam rifados por negociações políticas do pior tipo possível”, diz.

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Qual foi o grande erro do Rio no enfrentamento à Covid-19?

Na minha avaliação, foi não ter investido na atenção básica, como fizemos na zika, na dengue e na H1N1. Uma semana antes de a pandemia começar, cortaram 200 equipes da saúde da família.

A última gestão sempre ressaltou que atendia pacientes de fora da cidade. É esse o problema do Rio?

Isso existe em todas as capitais do mundo. Você tem vantagens e desvantagens de ser uma capital. É um erro ficar reclamando de outros municípios. Nenhum outro município estava tão desorganizado como o Rio na gestão passada. A cobertura de saúde da família caiu de 70% para 34%. Foi difícil (para a segunda gestão de Eduardo Paes) chegar a esses 70%, mas é uma dívida histórica, é uma obrigação. A média nacional é de 74%. Você reduzir a cobertura básica é matar pessoas. No primeiro dia deste ano, 42% das equipes de saúde estavam sem médico.

Quando isso pode ser equacionado?

A meta é chegar a 70% de cobertura até o fim da gestão.

Qual é o principal desafio da secretaria?

Organizar a questão orçamentária, que é gravíssima. A recomposição dos profissionais e da cadeia de insumos da atenção básica. Avançar na atenção primária, em indicadores de sífilis, mortalidade infantil, pré-natal, que vão dar impacto na atenção primária e na vida das pessoas. É um desafio melhorar a coordenação do cuidado, de como a unidade básica lida com outras áreas do sistema. Que aquele médico de família possa coordenar o cuidado daquele paciente. Uma coisa que não conseguimos fazer na primeira gestão foi informatizar toda a rede hospitalar, apesar de ter feito na rede básica. E na última gestão acredito ter sido um erro não ter aberto o sistema de leitos que a gente construiu. Se ele fosse público, não tínhamos construído hospital de campanha. Todos iam ver onde estariam os leitos. É algo que não tínhamos feito, mas já fizemos.

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Além da Covid-19, há outras doenças que preocupam?

A pandemia é gravíssima, muitos estão morrendo de Covid. Mas foi um ano em que fizemos menos exames de câncer de mama, colo de útero. A fila do sistema de regulação cresceu absurdamente. Hospitais passaram a atender apenas Covid. Há muita pendência de outras doenças. Teremos que correr atrás do orçamento dos governos estadual e federal para outras doenças e equilibrar o máximo possível com a vacinação da Covid-19.

Qual é o tamanho do passivo?

Temos cerca de 450 mil pessoas na fila por exames, atendimentos ambulatoriais e cirurgias eletivas. No ano passado, deixaram de ser atendidos cerca de 150 mil pacientes. É muita gente. Se colocarmos no papel, para zerar essa fila seriam necessários R$ 2,5 bilhões.

Mas o Ministério da Saúde vai mesmo cortar o financiamento de leitos nas cidades?

Estive no ministério esta semana e disseram que não vão cortar, que irão manter e até ampliar este financiamento. O ministério tem um desafio gigantesco que é reabrir o Hospital Federal de Bonsucesso, que é essencial. É uma unidade histórica e tem o problema de recursos humanos de toda a rede federal. Grande parte da fila do sistema de regulação se deve à diminuição da oferta, que aconteceu nas três esferas. Todo mundo precisa fazer sua lição de casa para reduzir a fila.

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Há outros problemas na rede municipal?

Não houve manutenção predial por quatro anos. Temos 2.700 aparelhos de ar-condicionado sem funcionar. Todos os leitos eram climatizados e hoje menos da metade tem ar-condicionado funcionando. Não temos uma unidade que foi reformada, pintada ou estruturada. Foram abertas clínicas de família remanejando mobiliário e sem contratar novos profissionais. Todos os cargos estratégicos estavam rifados por negociações políticas do pior tipo possível, o organograma da secretaria foi modificado para atender a interesses pessoais.

Só a cidade tem 1.800 leitos de diversas especialidades fechados….

Seria ótimo ter todos funcionando. Mas, neste momento, o SUS não tem orçamento para isso. O SUS está cada vez mais subfinanciado pelo governo federal. O governo estadual, pela primeira vez em alguns anos, nesta gestão, cumpre os 12% do orçamento da Saúde. Só vamos conseguir abrir esses leitos se crescer o financiamento do sistema. Leito é recurso financeiro. Não podemos ter o Hospital do Fundão, cuja reforma custaria R$ 180 milhões, e gastar R$ 370 milhões num hospital de campanha improvisado no Riocentro e outra fortuna no do Maracanã. Não faz sentido.

E qual será o papel das OSs na sua gestão?

Temos um problema no estado brasileiro de amarras na administração direta que são positivas e negativas. É positivo ter estatutários que ajudam o estado a ter estabilidade. Mas não podemos ter só isso porque atingimos rapidamente a Lei de Responsabilidade Fiscal. Precisamos equilibrar com modelos mais flexíveis e com mais agilidade, que nos permitam ampliar a capacidade de serviços públicos. As OSs são setores da sociedade civil que vão ajudar o poder público. O problema é que muitas pessoas inidôneas se infiltraram nesse mercado e quiseram levar vantagem.

O carnaval preocupa?

É o que mais preocupa, além da cepa do vírus de Manaus. O prefeito suspendeu o ponto facultativo, proibiu festas, aglomerações. Mas é tradição do carioca se juntar. E sabemos que vamos entrar no período sazonal de maio, junho e julho de gripe. Se não tivermos de fato avançado na vacinação, corremos o risco de ter um aumento de casos de novo.

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