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Monday, August 2, 2021

Salvini dá uma guinada e se afasta do programa da extrema direita para apoiar Draghi na Itália

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Membros da Liga dizem que movimento é calculado, visando melhorar a imagem de seu líder e o apelo da sigla, cujas avaliações estão em queda nas pesquisas

Da Reuters

11/02/2021 – 06:00

O líder da Liga, Matteo Salvini, fala a repórteres no segundo dia de consultas com o presidente Sergio Mattarella para buscar apoio a um novo governo, em Roma Foto: YARA NARDI / REUTERS/28-01-2021
O líder da Liga, Matteo Salvini, fala a repórteres no segundo dia de consultas com o presidente Sergio Mattarella para buscar apoio a um novo governo, em Roma Foto: YARA NARDI / REUTERS/28-01-2021

ROMA – Em fevereiro de 2017, o populista incendiário Matteo Salvini acusou o então chefe do Banco Central Europeu, Mario Draghi de ser um “cúmplice” no que chamou de “massacre” econômico da Itália. Quatro anos depois, Salvini inesperadamente prometeu o apoio da Liga, seu partido, a um governo que Draghi está tentando formar para enfrentar os flagelos da pandemia de coronavírus e da crise econômica que assola o país.

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Para alguém que já fez campanha para que a Itália abandonasse a moeda única europeia, o endosso de Draghi por Salvini marca uma mudança potencial para a Liga, desviando-a do campo eurocético da extrema direita para o campo moderado de centro-direita.

Membros da Liga dizem que movimento é calculado, com o objetivo de melhorar a imagem de Salvini, aumentando assim suas perspectivas de um dia se tornar primeiro-ministro, enquanto aumenta o apelo de sua sigla, cujas avaliações têm diminuído nas pesquisas.

— Queremos nos tornar uma espécie de Partido Republicano nos Estados Unidos. Um partido inclusivo que reconcilia todas as posições da centro-direita italiana, sem deixar nenhuma de fora — disse Giulio Centemero, parlamentar da Liga, à Reuters.

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O presidente italiano, Sergio Mattarella, deu a Draghi um mandato para formar um Executivo na semana passada, após o colapso da coalizão anterior, instando-o a buscar apoio de todos os partidos para seu governo.

A resposta imediata de Salvini foi manter Draghi à distância e pressionar por eleições antecipadas. Mas membros de seu círculo íntimo, incluindo o moderado Giancarlo Giorgetti, que é amigo de Draghi, viram nisso uma oportunidade de ouro para apertar o botão de reinicialização e se livrar do rótulo de “extrema direita” que assustou investidores no passado.

— A Liga quer se juntar a Draghi para limpar seu nome na Europa, para se livrar de sua reputação como um partido eurocético — disse uma fonte sênior da Liga, que ajudou a definir a política.

Erro de cálculo

A mensagem direta, anti-imigração de Salvini ressoou entre milhões de italianos e ajudou a transformar a Liga de um partido regional problemático no grupo mais popular da Itália, que conquistou 34% dos votos nas eleições para o parlamento europeu em 2019.

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Na época, a Liga estava no governo com o Movimento 5 Estrelas, antissistema. Levado por seu sucesso, Salvini deixou a coalizão, esperando desencadear uma eleição nacional. Foi um erro de cálculo terrível.

O Partido Democrata, de centro-esquerda, inesperadamente substituiu a Liga no governo e empurrou Salvini para a oposição, onde seus índices de aprovação caíram abaixo dos de outro político da Liga, Luca Zaia, governador do Vêneto.

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Zaia é amplamente reconhecido por ter feito um bom trabalho no combate ao coronavírus em sua região e representa a velha Liga, próxima aos industriais e líderes de pequenos negócios que constituem a espinha dorsal da economia italiana.

— A pandemia mostrou que políticas polarizadas não são aceitas pelos cidadãos em face do sofrimento. Os eleitores querem soluções para seus problemas — disse Nicola Pasini, professor de Ciências Políticas da Universidade de Milão.

A antiga ala do partido comemorou a promoção de Draghi, confiante de que ele traçaria planos favoráveis aos negócios sobre como gastar mais de 200 bilhões de euros de um fundo da União Europeia que visa revitalizar a economia abalada.

Mas para garantir uma parte dos despojos, eles precisavam que a Liga estivesse presente quando as decisões fossem tomadas. Em uma reunião com Salvini na quinta-feira passada, fontes do partido disseram que os governadores do norte, incluindo Zaia, juntaram forças com Giorgetti para convencer Salvini a apoiar Draghi.

— Houve muito pouca oposição à mudança na política [do partido]. Os governadores têm muito peso e quando falam em uníssono, Salvini tende a se alinhar — disse um legislador da Liga, que não quis ser identificado.

‘Uma piada’

A Liga viu um salto imediato em suas avaliações graças à decisão de se juntar ao novo governo de base ampla, com o apoio ao partido subindo de 0,7 pontos na semana passada para 24% — o maior aumento de qualquer partido, de acordo com sondagens da SWG.

— O movimento [de Salvini] mostra que a Liga é um partido totalmente maduro e deixa claro que é um partido confiável de se ter no governo — disse Gianluca Cantalamessa, um dos novos legisladores da Liga do Sul da Itália.

Alguns dos aliados de extrema direita da Liga no Parlamento europeu estão muito menos felizes com a perspectiva de um governo liderado por Draghi, que deve começar imediatamente a trabalhar no plano de recuperação, na esperança de utilizar todos os fundos da UE oferecidos.

— É uma piada, mas tão ruim que os alemães não conseguirão rir — disse Joerg Meuthen, colíder da Alternativa para a Alemanha (AfD), de extrema direita, argumentando que Berlim acabará pagando grande parte da conta.

Os políticos da Liga retrucaram, reavivando as especulações de que Salvini poderia em breve abandonar a facção nacionalista na Europa e pedir para ingressar no grupo do Partido Popular Europeu (EPP, na sigla original) — lar de todos os principais partidos de centro-direita da Europa.

— Juntar-se ao EPP parece ser a consequência lógica — disse Roberto D’Alimonte, professor de política da Universidade Luiss de Roma, para quem, no entanto, Salvini mudaria de rumo caso o experimento Draghi falhasse. — É uma escolha estratégica que só se consolidará se as coisas correrem bem. Se as coisas correrem mal, está tudo acabado. Ele vai voltar ao campo nacionalista.

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