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Saturday, January 22, 2022

Rodrigo Capelo: por uma leitura racional do futebol

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Rodrigo Capelo Foto: O Globo

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Torcedores, comunicadores e dirigentes têm o ímpeto de classificar a administração do clube conforme o resultado

Deyverson fez o gol que decretou a vitória do Palmeiras sobre o Flamengo na final da Libertadores Foto: ANDRES CUENCA OLAONDO / Andres Cuenca Olaondo/Reuters
Deyverson fez o gol que decretou a vitória do Palmeiras sobre o Flamengo na final da Libertadores Foto: ANDRES CUENCA OLAONDO / Andres Cuenca Olaondo/Reuters

Fico imaginando o que seria dito pela opinião pública, depois da final da Libertadores, se o resultado tivesse sido outro. Digamos que Andreas Pereira não tivesse entregado a bola para que Deyverson fizesse o gol da vitória do Palmeiras; suponhamos que o Flamengo conseguisse virar o jogo com lance individual de Arrascaeta e finalização certeira de Michael.

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“Eu não disse que com R$ 200 milhões também seria campeão?”, diria Renato Gaúcho em entrevista espetaculosa, antes de ser carregado nas costas por atletas. Ele seria reverenciado publicamente pela condução do vestiário, pela irreverência e pela autenticidade.

Rodolfo Landim participaria de todas as entrevistas possíveis para reafirmar o brilhantismo de sua gestão — até porque as eleições rubro-negras vêm aí. Luiz Eduardo Baptista, o Bap, faria afirmações megalomaníacas a um influenciador que o tivesse bajulado o ano todo. Marcos Braz posaria de entendedor de futebol e talvez iniciasse campanha por outro cargo público.

A história teria tais desdobramentos por causa do nosso comportamento diante da vitória e da derrota. Torcedores, comunicadores e dirigentes têm o ímpeto de classificar a administração do clube conforme o resultado em campo. Também é do gosto popular simplificar questões complexas em respostas simples e binárias. Um e zero, bom e ruim, heróis e vilões.

Em uma partida de futebol, jogadores tomam milhares de pequenas decisões que afetam o resultado. Quem está com a bola decide numa fração de segundo entre passá-la ou segurá-la, correr ou cadenciar. E quem não a tem se movimenta, ocupa e libera espaços, de modo que essas escolhas influenciam o que os atletas do outro lado pensam e fazem.

Considerar a complexidade do jogo é importante para evitar que narrativas falsas virem consenso. Renato deve ser demitido? Andreas está acabado para o futebol? Abel Ferreira precisa treinar a seleção brasileira? Seria imprudente responder com base numa partida só.

Avaliações são possíveis em todas as questões, inclusive em público, apesar da escassez de dados. Precisamos levar em conta os aspectos do jogo — técnico, tático, físico e psicológico — e buscar períodos mais abrangentes, como a temporada inteira, ou de preferência duas ou três.

O raciocínio vale para a administração além do campo. Hoje é fácil dizer que a diretoria de Landim, Bap e Marcos Braz está perdida. A torcida está furiosa com a derrota, então faz barulho falar mal deles. Dois anos atrás, esses mesmos dirigentes foram tratados como gênios.

Deixemos de lado as derrotas na Libertadores e na Copa do Brasil e o segundo lugar no Campeonato Brasileiro. No que esses dirigentes erraram? A troca frequente de técnicos é mau sinal. A pobreza no repertório ofensivo também chama atenção. E o que mais?

Sabemos que esta coluna teria cliques e assinaturas, nossos medidores de sucesso, se tivesse afirmações convictas e agressivas. “Incompetentes!” Mas só reproduziríamos a cultura nociva que puxa o futebol para trás. Pois acho que a mensagem tem de ser outra. Tenhamos mais perguntas do que respostas, pelo menos por enquanto. Lembre-se sempre de que tudo seria diferente se Andreas não tivesse entregado a bola para que Deyverson fizesse o gol da vitória.

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