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Sunday, December 5, 2021

Palmeiras eliminado do Mundial: é hora de nos rendermos à vida real

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Carlos Eduardo Mansur Foto: Agência O Globo



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Ano após ano, fabrica-se um favoritismo de tal ordem que quase nunca se escora em argumentos racionais

07/02/2021 – 19:01
/ Atualizado em 07/02/2021 – 19:24

Ano após ano, fica claro que não há qualquer justificativa para a abordagem brasileira do Mundial de Clubes. Primeiro, por transportarmos para a semifinal, seja ela com o campeão da Ásia, da África ou das Américas Central e do Norte, este vício de qualificar como vexame uma derrota esportiva. E pela eterna percepção de que a obrigação da vitória está do lado sul-americano do confronto. Fabrica-se um favoritismo de tal ordem que quase nunca se escora em argumentos racionais. Muito menos na ordem econômica do futebol atual.

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O que aconteceu ao Palmeiras ontem, em Doha, já acontecera a Internacional, Atlético-MG, River Plate e Atlético Nacional. Sejam os rivais do Japão, do Marrocos, dos Emirados Árabes ou do Congo, o Mundial de Clubes atual nada mais é do que um lembrete sobre a vida real: economicamente e, por consequência, esportivamente, os melhores times da América do Sul estão, hoje, muito mais próximos dos melhores asiáticos, mexicanos ou africanos do que dos europeus. As semifinais serão sempre duríssimas.

O peso que se joga sobre o representante brasileiro parece desconhecer que este Mundial é uma exposição das desigualdades nocivas que o futebol atual criou entre Europa e periferia. A semifinal disputada pelo clube sul-americano nada mais é do que um choque entre dois representantes desta periferia, em geral duas ilhas de bom poder aquisitivo dentro dos limites praticados fora da elite europeia. Mas aqui ainda se entende vitória como obrigação e derrota como vexame. Esta palavra, de uso injustificável em derrotas esportivas, é ainda mais descabida no Mundial de Clubes. Como resultado, os times daqui não desfrutam da chance de jogar o torneio. Entram tensos, como se carregassem um fardo artificialmente fabricado.

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O caso do Palmeiras, dominado por cerca de 60 a 65 minutos pelo Tigres, do México, é ainda mais emblemático. Primeiro, olhemos para o rival. O francês Gignac, dono de 36 jogos, sete gols e uma Copa do Mundo disputada pela França, está há quase seis anos no Tigres, onde recebe salários que o Brasil não pratica. Propriedade de uma das maiores fabricantes de cimento do planeta, o Tigres está num mercado que investe alto em futebol.

Agora olhemos para este Palmeiras. Por que deveria ser favorito um time que tem no cargo um treinador há apenas três meses? E que, neste tempo, viu o recém-chegado técnico pegar Covid-19, lidar com um surto no elenco e enfrentar uma insana maratona de jogos? E pior, por que deveria ser favorito diante de um rival que, além de ter bons jogadores, levou a campo sete titulares que têm ao menos quatro anos de clube? Sem falar no treinador, há 11 anos no cargo.

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Com tudo isso, o Palmeiras até criou, na parte final do jogo, chances que poderiam ter lhe dado um empate. Mas, antes, o encontro refletiu as diferenças. O Tigres tinha mais argumentos coletivos, criou superioridade no meio, movia a bola com mais fluência e eliminou o jogo direto do time de Abel Ferreira. E via Gignac, com rara inteligência, ganhar bolas longas pelo alto, ser dominante aproveitando os cruzamentos ou se mover servindo de apoio para tabelas. O domínio foi claro por boa parte do jogo.

Vivemos uma temporada atípica. E nela, um Palmeiras ainda muito longe de ser um time pronto, consolidado, venceu a Libertadores. E o fez porque Abel Ferreira parece ter muitos recursos como treinador e porque o elenco tem talentos. Mas o time oscila, passou maus momentos em muitos jogos… O ano é tão atípico que o campeão da Libertadores é, a rigor, um promissor projeto para a temporada 2021. Talvez a glória sul-americana tenha chegado cedo demais. O que já passou do tempo é revermos, nesta era de desigualdades entre Europa e periferia, o nosso olhar para o Mundial de Clubes.

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