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Saturday, September 25, 2021

O macabro processo de 'impeachment' que julgou o cadáver de um papa

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Formoso estava morto há sete meses quando foi desenterrado, vestido e colocado em um trono para ‘ouvir’ as acusações contra ele apresentadas pelo pontífice Estevão 6º

Frederik Pedersen

10/02/2021 – 07:09
/ Atualizado em 10/02/2021 – 07:10

O pintor Jean-Paul Laurens imortalizou o julgamento em 1870, em sua pintura 'Papa Formoso e Estêvão 6º' Foto: Getty Images
O pintor Jean-Paul Laurens imortalizou o julgamento em 1870, em sua pintura ‘Papa Formoso e Estêvão 6º’ Foto: Getty Images

BBC topo (Foto: BBC)

Após sofrer um impeachment pela segunda vez, o ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump começou a ser julgado pelo Senado na terça-feira (9/2).

Foi a primeira vez que um presidente americano sofreu impeachment duas vezes por “crimes graves e contravenções”.

Trump é acusado de “incitar a insurreição” antes de seus apoiadores atacarem o prédio do Capitólio, nos EUA, em 6 de janeiro. Agora, tiveram início as argumentações formais no Senado.

Mas a campanha na mídia já estava em andamento, porque os apoiadores do ex-presidente — e seus adversários políticos — vinham se posicionando publicamente sobre o caso.

Entre os defensores de Trump, a senadora republicana Lindsey Graham disse ao apresentador da Fox News Sean Hannity que, se Trump fosse condenado pelo Senado após deixar o cargo, isso abriria a porta para ex-presidentes serem julgados.

“Se um presidente pode ser julgado depois de deixar o cargo, por que não julgamos George Washington? Ele possuía escravos”, disse Graham. “Onde isso vai parar?”

Há, é claro, uma falha óbvia no comentário de Graham: estando morto, Washington não pode se defender.

Mas a história do papado medieval nos ensina que mesmo a morte pode não ser um obstáculo para a acusação por má conduta em cargos públicos.

No sínodo eclesiástico, realizado em Roma, o mais alto cargo da cristandade poderia ser julgado por transgressões às tradições e costumes da Igreja Foto: Getty Images
No sínodo eclesiástico, realizado em Roma, o mais alto cargo da cristandade poderia ser julgado por transgressões às tradições e costumes da Igreja Foto: Getty Images

O impeachment medieval

Mais de mil anos atrás, a Igreja ocidental estava em crise. Havia uma disputa acirrada entre Roma e Constantinopla sobre qual era a chefia da igreja cristã.

Ondas de imigrantes se instalaram onde hoje estão Hungria e Bulgária, aumentando as tensões entre Constantinopla e Roma, que disputavam a soberania sobre uma população que passava por mudanças e com lealdades variadas.

Esses conflitos levantaram questões importantes sobre as qualidades exigidas dos líderes da cristandade.

Durante este período, o equivalente medieval do impeachment foi usado com bastante frequência.

Foi um sínodo eclesiástico realizado em Roma, no qual o titular do mais alto cargo da cristandade poderia ser julgado por transgressões às tradições e costumes de seu cargo.

Um desses sínodos aconteceu em janeiro de 897 e nele foi julgado o então pontífice Formoso (que foi papa entre 891 e 896).

O único problema é que Formoso já estava morto há sete meses quando o julgamento começou.

Mas o novo papa, Estevão 6º, tinha a firme opinião de que, mesmo quando os líderes deixassem o cargo, eles poderiam ser punidos por suas infrações.

O papa Estevão 6º retirou o cadáver de Formoso de seu sarcófago e o sentou no trono para ouvir as acusações Foto: Getty Images
O papa Estevão 6º retirou o cadáver de Formoso de seu sarcófago e o sentou no trono para ouvir as acusações Foto: Getty Images

Morto e sentado no trono

O sínodo foi realizado em circunstâncias um tanto sombrias. O papa Estevão 6º ordenou que o cadáver de Formoso fosse removido de seu sarcófago e levado à Basílica de São João de Latrão, em Roma, para ser julgado.

O cadáver foi adornado com adereços papais e colocado em um trono para enfrentar as acusações de que Formoso havia quebrado as regras da Igreja. Um diácono estava presente para responder em nome de Formoso.

Estevão 6º acusou o cadáver de quebrar o juramento de não retornar a Roma e de ter obtido ilegalmente o título de papa por já ser bispo na época em que foi eleito.

Os supostos crimes ocorreram muito antes do julgamento. Em julho de 876, Formoso foi excomungado por se intrometer na política das potências europeias e proibido de celebrar missa pelo papa João 8º.

Mas, depois da morte deste último, a sentença de excomunhão foi retirada pelo sucessor de João 8º, Marinho 1º, em 878, e Formoso voltou ao seu posto de bispo do Porto.

Apesar de ter manchado seu histórico, Formoso foi eleito papa em 1º de outubro de 891 e imediatamente envolveu-se novamente na política.

Na Itália, encorajou a insurreição, persuadindo Arnulf da Caríntia a avançar em direção a Roma e expulsar o imperador reinante.

O papa Estevão 6º ordenou que os três dedos que o papa morto havia usado nas consagrações fossem cortados e que seu corpo fosse lançado no rio Tibre Foto: Getty Images
O papa Estevão 6º ordenou que os três dedos que o papa morto havia usado nas consagrações fossem cortados e que seu corpo fosse lançado no rio Tibre Foto: Getty Images

Arnulfo tomou Roma à força em 21 de fevereiro de 896, mas seu sucesso durou pouco, pois antes que tivesse a chance de avançar contra a fortaleza de seu adversário em Spoleto, ele ficou paralisado e não conseguiu continuar a campanha. A paralisia, aliás, era considerada um castigo divino na Idade Média.

É importante lembrar que essa foi uma época em que o papado mudou de mãos em um ritmo alarmante: quase todos os anos entre 896 e 904 havia um novo papa, às vezes até dois.

Formoso foi sucedido por Bonifácio 6º, que morreu duas semanas depois. Estêvão 6º foi o próximo a ocupar o trono papal. Ele havia sido um apoiador de Formoso, mas mudou de lado e agora estava alinhado com a família Spoleto, todo-poderosa em Roma.

Sem surpresa, Estêvão 6º considerou Formoso culpado porque ele não poderia receber legalmente o título papal, já que ele era o bispo de outra sé e havia retirado seu juramento de não celebrar a missa.

Todas as suas medidas, atos e decisões judiciais foram anuladas, bem como suas ordens sacerdotais, que foram declaradas inválidas.

Suas vestes papais foram arrancadas de seu corpo. Os três dedos que o papa morto usara nas consagrações foram cortados de sua mão direita e o cadáver, enterrado em um túmulo no cemitério destinado a indigentes, apenas para ser removido após alguns dias e jogado no rio Tibre.

Trump, atualmente em seu resort em Mar-a-Lago, na Flórida, não sofrerá as indignidades do cadáver do papa Formoso.

Mas, como Formoso, ele verá muitas (senão todas) suas decisões e nomeações anuladas nestes primeiros dias da Presidência de Joe Biden.

Curiosamente, após a morte de Estêvão 6º, Formoso foi reabilitado e seu papado restaurado pela Igreja.

Por sua vez, há rumores de que Trump ainda está considerando seu retorno à política americana.

Tendo perdido acesso ao equivalente moderno dos três dedos de Formoso — suas contas de mídia social — ele não pode mais conceder favores ou inspirar seus seguidores com facilidade.

Mas, como já sabemos, coisas mais estranhas já aconteceram.

*Frederik Pedersen é professor de História da Universidade de Aberdeen. Este artigo nota apareceu originalmente em The Conversation e é publicada aqui sob uma licença Creative Commons.

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