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Thursday, September 16, 2021

O BBB sofre da ansiedade da lacração

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Jerônimo Teixeira Foto: O Globo

As celebridades do reality show parecem não compreender que a TV aberta é um universo maior que suas contas no Instagram

Os participantes Lucas Penteado e Karol Conká brigaram no programa Foto: TV Globo / Reprodução
Os participantes Lucas Penteado e Karol Conká brigaram no programa Foto: TV Globo / Reprodução

“Enquanto coletividade”: eu estava no sofá, entre sites de notícias, Facebook e grupos de WhatsApp, quando essa locução me despertou para o programa que passava na TV, o Big Brother Brasil. Eu já acompanhara uma meia dúzia de edições do BBB, lá na virada do século, e nunca antes ouvira nenhum dos concorrentes falar nesse jargão de assembleia estudantil: “enquanto coletividade”. Algo mudou no reality show.

Algo mudou também no modo como vemos televisão. O serviços de streaming, ao permitir que o espectador veja o programa de sua escolha na hora que quiser, instauraram o binge watching, prática de assistir de uma só vez, de forma concentrada, aos episódios de uma série. A TV aberta segue o modelo da audiência flutuante. Fãs mais ardorosos do BBB decerto não perdem um só dos programas diários, mas maioria dos espectadores vê o programa quando pode, sobretudo nos dias mais decisivos, como a noites de eliminatória.

Eis o que minha atenção flutuante captou até agora no BBB (ainda não aprendi o nome dos personagens, por isso vou designá-los por certas características distintivas – que não são fáceis de achar: “bofe tatuado e sarado” descreve quase todo o elenco masculino):

– Parece que a primeira encrenca se deu quando uma mulher negra de turbante disse que o caipira branco musculoso havia agredido todos os travestis do Brasil ao desfilar, desmunhecando, com maquiagem de uma marca patrocinadora. A tensão foi superada e hoje o caipira musculoso já nem se destaca na história.

– Um punhado de contas no Twitter divertiu-se horrores com o episódio em que o hipster branco de ar sonolento (um tal que é filho do Fábio Júnior mas não da Glória Pires – ou será o contrário?) quis ensinar uma mulher negra (não a do turbante) que é errado dizer senhor e senhora: o correto é senhore! Não sei dizer se o hipster de ar sonolento estava falando sério ou se tentou uma boutade da qual ninguém riu.

– Em outra ocasião, o hipster de ar sonolento disse uma moça agitada que ela havia se excedido em seu privilégio de mulher branca quando se meteu em uma conversa entre alguns dos participantes negros do BBB. A moça agitada foi chorando pedir desculpas a um homem negro, que a tranquilizou: não, ela não havia nem de longe sido racista.

– Se minha atenção não flutuou além da conta, será seguro afirmar que o centro das maiores as tretas é o jovem negro de cabelo todo raspado. O coitado conseguiu ser detestado – e isolado – por boa parte dos integrantes da casa, incluindo o seu ídolo, um homem que fala muito nos seus vinte anos de rap e que diz não querer dividir a casa em linhas raciais. Em aconchegante conversa na cama, uma pequena panela de competidores do BBB reclamou muito do jovem negro de cabelo todo raspado. Todos concordaram que não dava mais para aguentar ouvi-lo falar na necessidade “desconstruir” as coisas. Alguém até duvidou que o jovem negro de cabelo todo raspado soubesse o que o verbo queria dizer; outro alguém acrescentou que com toda certeza ele nunca havia lido Derrida (minha imaginação errante pode ter acrescentado algum detalhe que não estaria na conversa original).

– O jovem negro de cabelo todo raspado irritou sobretudo a mulher negra de cabelo raspado só no ladinho, que o chamou de “idiota” em uma sessão de terapia grupal coordenada pelo apresentador do programa, Tiago Leifert. Foi nessa reunião que a representante de não sei que grupo estabelecido pelas regras do jogo comunicou sua escolha para integrar o “paredão”: o grupo, “enquanto coletivo”, indicou o bofe tatuado e sarado para eliminação.

Enquanto coletivo, o atual elenco do BBB me parece mais nervosinho do que os competidores de edições anteriores. Se minha memória (que não flutua mas claudica) está correta, nunca vi no programa tanta gente chorando e se descabelando e se insultando já na primeira semana. Certo, eu não tenho um termo de comparação apropriado, pois o último BBB que acompanhei lançou Grazi Massafera à fama e teve Jean Wyllys como vencedor. Mas o próprio Tiago Leifert comentou que este BBB já dá a impressão de estar há meses no ar.

Minha hipótese é que o clima histérico da casa tem tudo a ver com o universo em que foram recrutados alguns dos participantes. Metade deles já eram celebridades da música, da TV, do humor, das redes sociais. Quase todos circulavam nos meios ocupados pela nova esquerda identitária e santarrona, sempre pronta a promover expurgos virtuais na internet e a impor constrangimentos reais na vida profissional e pessoal daqueles que dizem a palavra proibida ou fazem o gesto errado. E é isso que explica que o cancelamento tenha sido um tema dominante na primeira semana.

A ação autoritária do novo progressismo nos meios acadêmicos americanos está bem documentada em The Coddling of the American Mind (algo como “a mente americana mimada”), de Thomas Haidt e Greg Lukianoff, obra que precede o uso agora costumeiro da expressão “cultura do cancelamento” mas que já descreve o fenômeno com muita precisão. Haidt é psicólogo, e por isso boa parte do livro dedica-se ao exame das consequências que a autocensura ao pensamento imposta pelo dogmatismo progressista causa aos que rezam por esse credo. A vigilância permanente sobre pecados e crimes da linguagem – não é senhor nem senhora, é senhore! – cria jovens mais ansiosos e infelizes.

A moça branca agitada que chora porque pensa que os companheiros negros a julgaram racista foi afetada pelo mal que poderíamos chamar de “ansiedade da lacração”. Também o jovem negro de cabelo todo raspado que abusou do verbo “desconstruir” e tentou jogar com as divisões étnicas de uma casa onde nunca se viu demonstração de racismo: este, sobretudo, é um case perfeito para os diagnósticos de Haidt.

Enquanto indivíduos as celebridades do BBB talvez tenham um choque ao sair da casa (dificilmente, eu apostaria, na condição de vencedores). Ainda que eles tenham centenas de milhares de seguidores ou até alguns milhões de seguidores no Instagram, um programa de sucesso na TV aberta ainda atinge um público exponencialmente maior. A mulher negra de cabelo raspado só no ladinho está se consolidando no papel de vilã desta temporada. No lado de fora da casa, ela tem uma sólida carreira como cantora, mas já se noticia que estaria perdendo contratos para shows. Para meu critério, artista deveria ser julgado só por sua arte, não pelas ideias políticas ou pela fé religiosa – e nem mesmo pelo caráter. Mas os critérios hoje dominantes são bem outros.

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