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Sunday, May 16, 2021

No Louvre, em Paris, Mona Lisa ainda está sozinha, mas continua sorrindo

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O museu está fechado para visitantes e algumas áreas passam por reconstrução

Liz Alderman/2021/The New York Times

10/02/2021 – 04:30

Leonardo da Vinci's
Leonardo da Vinci’s “Mona Lisa” in an empty gallery at the Louvre in Paris on Dec. 4, 2020. With the Louvre closed because of the coronavirus pandemic, museum officials are pushing ahead on a grand restoration and cleanup. (Dmitry Kostyukov/The New York Times) Foto: DMITRY KOSTYUKOV / NYT

De sua redoma à prova de balas no Museu do Louvre, o sorriso de Mona Lisa se deparou com uma visão desconhecida em determinada manhã: o vazio. A galeria onde uma multidão de visitantes se aglomerava para cobiçá-la dia após dia estava deserta sob o mais recente confinamento do coronavírus na França.

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Ao virar a esquina, a Vitória de Samotrácia flutuava silenciosamente acima de uma escadaria de mármore, majestosa na ausência dos paus de selfie e dos grupos de turistas. No porão medieval do Louvre, a Grande Esfinge de Tânis pairava no escuro como um fantasma de granito atrás das grades.

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Ainda assim, em meio à rara e monumental quietude, alguns sons ressoavam nos grandes salões do Louvre. O ratatá de uma britadeira ecoava acima da cabeça da Esfinge. Um rap podia ser ouvido na Sala Bronze sob o teto de Cy Twombly na Ala Sully, perto de onde os trabalhadores serravam o parquet para um novo piso gigante. Nos antigos apartamentos de Luís XIV, os restauradores com máscara cirúrgica subiam em um andaime para aplicar folhas de ouro em molduras ornamentadas.

O museu mais visitado do mundo – quase dez milhões de pessoas em 2019, principalmente do exterior – está lutando contra o fechamento mais longo desde a Segunda Guerra Mundial, à medida que as restrições da pandemia mantêm os tesouros trancados a sete chaves. No entanto, sem as multidões que podem chegar a 40 mil pessoas por dia, os funcionários do museu estão aproveitando uma oportunidade de ouro para fazer uma grande reforma para quando os visitantes retornarem.

No caso de alguns projetos, o bloqueio nos permitiu fazer em cinco dias o que antes levaria cinco semanas”, disse Sébastien Allard, curador geral e diretor do departamento de pinturas do Louvre.

Os amantes do Louvre tiveram de se contentar em ver as obras-primas durante a pandemia por meio de tours virtuais e das hashtags #LouvreChezVous e @MuseeLouvre. Milhões de espectadores ganharam um prêmio espetacular com a série de sucesso da Netflix “Lupin”, na qual o ator Omar Sy, interpretando um ladrão cavalheiro, atua em cenas cheias de ação nas galerias mais conhecidas do Louvre e sob a pirâmide de vidro projetada pelo arquiteto chinês I.M. Pei.

Mas a realidade virtual dificilmente consegue substituir a coisa real. As autoridades do Louvre esperam que o governo reabra as instituições culturais ao público em breve, embora a data dependa do curso do vírus.

Enquanto isso, um pequeno exército de cerca de 250 artesãos está trabalhando desde a entrada em vigor do último bloqueio da França, em 30 de outubro. Em vez de esperar a terça-feira – o único dia em que o Louvre costumava fechar –, curadores, restauradores, conservadores e outros especialistas estão trabalhando com afinco cinco dias por semana para concluir as grandes reformas que começaram antes da pandemia e introduzir novos embelezamentos que esperam terminar até meados de fevereiro.

Louvre fechado Foto: DMITRY KOSTYUKOV / NYT
Louvre fechado Foto: DMITRY KOSTYUKOV / NYT

Parte do trabalho é relativamente simples, como tirar o pó da moldura de quase 4.500 quadros. Outra parte é hercúlea, como a reforma no salão de antiguidades egípcias e na Ala Sully. Quase 40 mil placas explicativas em inglês e em francês estão sendo penduradas ao lado das obras de arte.

Mesmo antes da pandemia, o Louvre estava analisando com seriedade o gerenciamento de multidões porque o turismo em massa significava que muitas galerias ficavam lotadas de grupos de turistas. Embora as restrições de viagem tenham reduzido o número de visitantes, o museu, quando for reaberto, vai limitar a entrada dos portadores de ingresso com reserva, para atender aos protocolos de saúde.

Outras mudanças estão planejadas – como novas experiências interativas, incluindo sessões de ioga a cada meia hora às quartas-feiras perto das obras-primas de Jacques-Louis David e Peter Paul Rubens, e workshops com atores representando as cenas de quadros famosos bem em frente à tela.

É importante ressaltar que o museu é vivo e que as pessoas têm o direito de fazer essas coisas aqui”, disse Marina-Pia Vitali, vice-diretora de interpretação que supervisiona os projetos.

Quando caminhei pelos corredores em uma visita recente, fiquei emocionada ao ver a Vênus de Milo erguer-se de seu pedestal – sem o brilho dos iPhones – e admirei, sem pressa, a peça de tecido transparente esculpida no mármore imaculado.

Restauradores no Louvre Foto: DMITRY KOSTYUKOV / NYT
Restauradores no Louvre Foto: DMITRY KOSTYUKOV / NYT

Na cavernosa Sala Vermelha – lar de pinturas francesas monumentais, incluindo a coroação de Napoleão como imperador em Notre-Dame, e a Balsa da Medusa, retratando almas de pele cinza agarradas à vida –, foi edificante não ter sido arrastada pela multidão.

A pandemia também causou estragos no planejamento de exibições especiais. O Louvre empresta cerca de 400 obras por ano a outros museus e recebe vários empréstimos para mostras especiais. “É realmente complicado, porque todos os museus do mundo estão em processo de mudança de planejamento”, comentou Allard.

Enquanto os governos ordenam novas restrições para conter o ressurgimento do vírus, programas especiais estão sendo adiados. Um empréstimo reservado para exposições em vários museus pode ficar retido, tornando difícil entregar as obras de arte prometidas, observou o curador.

Em um pequeno carrinho de metal, o autorretrato de um jovem Rembrandt, resplandecente, usando uma vistosa boina preta, um colar de ouro grosso e um sorriso confiante, descansava em uma moldura oval ornamentada. O sucesso de 1633 foi emprestado ao Museu Ashmolean, em Oxford, na Inglaterra, mas ficou retido durante três meses lá por conta das restrições de viagem impostas pelo coronavírus. Poucos dias antes, havia retornado para sua casa, no Louvre, de caminhão pelo túnel subaquático do Canal da Mancha que liga o Reino Unido à França.

Blaise Ducos, curador-chefe da coleção de pinturas holandesas e flamengas do Louvre, costuma acompanhar os empréstimos que saem e chegam, mas só pôde assistir à remoção de Rembrandt por vídeo. Ele dirigiu até Calais para pegar a obra-prima quando ela emergiu do túnel e finalmente supervisionou sua reinstalação na sala Rembrandt do Louvre. “Estamos felizes por tê-la de volta”, frisou Ducos.

Louvre vazio Foto: DMITRY KOSTYUKOV / NYT
Louvre vazio Foto: DMITRY KOSTYUKOV / NYT

Ali perto, trabalhadores escalavam um andaime rolante para remover uma enorme pintura de Vênus pedindo armas a Vulcano, de autoria de Anthony van Dyck. Destinada a uma exposição em Madri, a pintura foi levada pelos corredores holandeses, passando pelo astrônomo de Johannes Vermeer estudando um astrolábio antes de ser fixada em frente a uma pequena porta na sala de Rubens.

Os trabalhadores viraram o quadro de lado e o deslizaram sobre almofadas até a próxima galeria, onde seria embalado e – se as restrições pandêmicas permitissem – enviado ao seu destino.

A Covid foi uma força maior. No momento, temos tantos pontos de interrogação – é difícil saber qual será a situação em dois, três ou quatro meses. Mas, a despeito da Covid, continuamos trabalhando como sempre. Devemos estar prontos para receber o público de volta disse Allard, enquanto duas pinturas holandesas eram içadas para substituir o van Dyck.

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