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Friday, June 18, 2021

Miss Universo: controle do corpo da mulher é projeto e concurso não foge à regra

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Maria Carolina Medeiros Foto: O Globo



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Beleza e corpo disciplinado como ‘gêneros de primeira necessidade’ é uma construção historicamente atreladas a ser feminina

No último final de semana aconteceu a 69a edição do concurso Miss Universo, que premiou a mexicana Andrea Meza. A brasileira Julia Gama ficou em segundo lugar. O tema interessa porque, ainda que haja também o concurso de Mister Universo, com candidatos homens, a disputa das mulheres mimetiza e reafirma performances que parecem remeter aos primeiros concursos, na década de 1950.

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Causa espanto saber, por exemplo, que para candidatas a miss estão reservadas regras como: não podem ser ou ter sido casadas, nem ter filhos — biológicos ou não. Penso que tais normas visam manter a mulher com o espectro de “disponível”, “desejável”, que ainda pode “ser conquistada” e que, por isso, atrai o olhar. Uma vez que historicamente a feminilidade se realiza no casamento e na maternidade (“uma mulher só é completa se for casada e mãe”), a mulher que preenche estes “requisitos” teria “completado” esta performance, e não seria mais objeto de interesse.

Andrea, à esquerda, e Julia, à espera do resultado: Brasil na trave mais uma vez no Miss Universo Foto: Rodrigo Varela / AFP
Andrea, à esquerda, e Julia, à espera do resultado: Brasil na trave mais uma vez no Miss Universo Foto: Rodrigo Varela / AFP

No Brasil, o concurso nacional de miss existe desde 1954, e por quase duas décadas as candidatas ao título foram treinadas por Maria Augusta, fundadora da Socila. Muito famosa no Rio de Janeiro dos anos 1950 a 1980, a Socila era uma instituição que ensinava etiqueta e boas maneiras às moças, não apenas às candidatas a miss, mas também a mulheres “comuns” que desejavam aprender as boas maneiras para a vida em sociedade.

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No caso das misses, Maria Augusta tinha a fama de ser dura, marcando seus passos com uma bengala e disciplinando seus corpos: as moças aprendiam o jeito “adequado” de andar, de gesticular, de sorrir, de falar, no que ela chamava de “aperfeiçoamento social”. Em declarações à imprensa da época, Maria Augusta dizia que o concurso não se tratava de mera exibição de pernas e curvas; tornar-se miss era como ser uma potencial embaixatriz do Brasil no exterior. E quem melhor preenchia esses requisitos? As “calmas e cordatas”, segundo a própria.

Em uma rápida busca por imagens dos candidatos ao Mister Universo, é fácil perceber que os corpos masculinos são marcados por músculos, mais se assemelham a halterofilistas, confirmando que no caso do homem o que importa é a força, sinônimo secular de virilidade. A oposição entre força masculina e beleza feminina se perpetua e ainda se notabiliza nos concursos.

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Sobre os concursos de miss, em 1971 Maria Augusta disse, em reportagem da revista ‘O Cruzeiro’, que “beleza é muito importante. Mas não é tudo. Mil bossas têm de ser aprendidas e mil pequenos defeitos, corrigidos, antes de pisar a passarela do Maracanãzinho [onde o concurso era realizado]. Postura, etiqueta, comportamento, aquele tom de maquiagem, aquele plá — tudo isso é importante numa receita de miss. Nossa mercadoria é a beleza e a educação da mulher. Estamos seguros de que vendemos um gênero de primeira necessidade”. Esta declaração importa porque, embora haja concursos masculinos, eles não têm o mesmo apelo — beleza e corpo disciplinado como “gêneros de primeira necessidade” é uma construção historicamente atreladas a ser feminina.

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Neste sentido, os concursos de miss eram e continuam sendo o ápice da performance de feminilidade, do que se espera que a mulher “se torne”, para citar Simone de Beauvoir: é preciso ser jovem (limite de idade inferior a 30 anos), ser magra, ser bela e ter o corpo disciplinado, com a forma “corrreta” de andar, de gesticular, até de sorrir — nem demais, nem de menos. O controle do corpo da mulher é projeto secular, e o concurso de miss não foge à regra.

* Maria Carolina Medeiros é pesquisadora, professora e doutoranda em Comunicação na PUC-Rio. Pesquisa narrativas sobre mulheres e estuda a Socila.

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