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Wednesday, April 14, 2021

Menos improviso, por favor

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Zeina Latif Foto: O Globo



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09/02/2021 – 20:57
/ Atualizado em 09/02/2021 – 21:05

É bastante óbvio que a vacinação em massa e a transferência de renda aos indivíduos mais vulneráveis ao impacto da pandemia são temas urgentes da política pública. Não faltaram alertas. Mesmo assim, falta foco e há muito improviso.

A retomada da economia depende desses assuntos, interligados – quanto mais lenta a vacinação, maior a necessidade de socorrer os mais pobres. Não se trata apenas de garantir recursos orçamentários, mas de ter bons desenhos de políticas públicas.

O governo falha nas duas frentes. A julgar pelo andar da carruagem, teremos a pior combinação possível: o aumento do endividamento público financiando medidas pouco eficazes.

A reação à pandemia foi relativamente rápida do lado econômico, mas não nos preparamos para uma crise que ainda terá mais capítulos, em boa medida pelos próprios erros do governo. Pessoalmente, defendi uma gestão mais cautelosa e com foco especial na saúde, pois conter a doença ajudaria a limitar o contágio na economia.

A crise prometia ser longa e o quadro fiscal já era frágil. A escolha, no entanto, foi outra. Como resultado, a saúde padeceu e ficou a fatura de um custo fiscal mais elevado na comparação mundial.

Há muitas incertezas sobre quando atingiremos a “imunidade de rebanho” pela vacinação. Para começar, não há evidências claras sobre qual a taxa de imunidade para a Covid-19. Especialistas falam em 60%-80%, o que significa a necessidade de eficácia das vacinas nesse intervalo.

No entanto, as estimativas não consideram as novas cepas e assumem a vacinação aleatória, o que não ocorre por razões estratégicas e morais – são prioridade os profissionais de saúde e os idosos.

Seria importante testagem em massa para mapear as novas cepas, algo improvável.

Quanto mais demorar a vacinação, maior a ocorrência de mutações. Trata-se, pois, de uma “corrida entre vacinação e novas mutações”, nas palavras de Julio Croda.

A tarefa vai além de adquirir vacinas e materiais tempestivamente – não se sabe ao certo esses números. Envolve logística, planejamento e treinamento de profissionais da saúde para reduzir perdas físicas e técnicas na vacinação.

As perdas físicas (frasco ainda fechado) estão mais associadas a problemas de logística, como acondicionamento, e as perdas técnicas (frasco aberto) decorrem principalmente do manejo.

O Ministério da Saúde adotou como parâmetro uma taxa de 5% de perda no Plano Nacional de Imunização, mas parece otimista em demasia. São poucas as pesquisas disponíveis sobre perdas em vacinação no Brasil, mas elas indicam taxas muito superiores às recomendadas pela OMS de 5% para frascos de dose única e 25% para dose múltipla – é o caso das vacinas da Covid-19 -, pois uma vez aberto o frasco, o prazo para a vacinação é bastante curto.

Uma pesquisa feita em 2015-17 por Scheila Mai e coautores para a região metropolitana de Porto Alegre – o 6o maior IDH entre as capitais – obteve taxa média de perda de 45,8%, sendo 29,1% para vacinas com dose única e 56,7% para dose múltipla. Outros estudos mostram grande heterogeneidade entre estados. Imagine as perdas em regiões mais carentes.

Esse difícil quadro sugere que não voltaremos rapidamente à normalidade. Isso em meio à exaustão de políticas anticíclicas fiscal e monetária. A dívida pública elevada e crescente já contamina o ambiente macroeconômico, como no comportamento do dólar, e o Banco Central externou recentemente o desconforto com a baixa taxa de juros atual.

Os políticos têm apontado a necessidade de estender o auxílio emergencial, por coerência ou por se preocuparem com a queda de aprovação do governo. Aqui também há improviso de um governo que preferiu procrastinar, talvez temendo o desgaste junto a investidores por conta de mais gastos por iniciativa do Executivo.

O resultado é que não há estudo embasado tecnicamente para definir o valor e o público alvo. Depois dos excessos no programa anterior, tornou-se necessário focalizar melhor em quem realmente precisa. O governo deveria ter aperfeiçoado o Cadastro Único, por meio de convênios com os entes subnacionais, e encontrado fontes de recurso no orçamento.

Saídas existem, como aponta Marcos Mendes, mas condicionadas a reformas. Desperdiçamos tempo valioso.

Há um deserto a ser atravessado, e estamos sem provisões.

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