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Sunday, October 17, 2021

Luiza Brunet, Cynthia Howlett e Evelyn, da Mangueira, falam sobre as angústias de um ano sem Carnaval

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Só o vento percorria os 700 metros de extensão da Avenida Marquês de Sapucaí, numa tarde de janeiro. “Fosse um ano normal, isso aqui já estaria tomado pelo barulho dos martelos, gente instalando os refletores, aquela correria”, lamenta Luiz Sérgio da Silva, de 63 anos, assistente administrativo que trabalha por lá desde a inauguração, em 1984. É a primeira vez que ele presencia um Sambódromo silencioso às vésperas do carnaval. Uma ausência de sons que só deve ser rompida no carnaval do ano que vem, quando a população finalmente estiver vacinada. “Temos que aceitar. Quando tudo isso passar, vai ser uma reviravolta. O público virá em peso. Aí que vai acontecer mesmo o maior espetáculo da Terra.” Festa que certamente será abrilhantada pelos personagens a seguir, não só na Sapucaí, como em todos os cantos da cidade, dos salões do Copacabana Palace às ruas de Guadalupe.

Evelyn Bastos, samba no pé desde os 4 anos

Rainha de bateria da Mangueira desde 2014, Evelyn Bastos costuma dizer que entendeu o carnaval antes mesmo de compreender o que era o mundo. “Comecei, aos 4 anos, na Mangueira do Amanhã”, conta a professora de Educação Física, de 27. Ao posar para a foto desta página, foi a primeira vez que pisou na Sapucaí, desde o início da pandemia, em 2020. “O sentimento que bate reflete o que a gente vê: um vazio”.

Evelyn deu os primeiros passos na Mangueira do Amanhã, aos 4 anos Foto: Leo Martins / Agência O Globo
Evelyn deu os primeiros passos na Mangueira do Amanhã, aos 4 anos Foto: Leo Martins / Agência O Globo

Evelyn está especialmente preocupada com sua comunidade neste período. “A pandemia no morro é diferente do asfalto, onde é mais sentimental. Na favela, as pessoas vivem, de fato, as consequências, precisam usar transporte público lotado porque não podem deixar de trabalhar”, lamenta. Quando olha para frente, porém, enxerga beleza no horizonte. “A maior emoção vai ser quando fizermos o primeiro ensaio, e a favela descer em peso para quadra.”

Anilson Costa, pernalta incansável

No carnaval passado, Anilson Costa foi dormir só na Quarta-Feira de Cinzas. “Apenas cochilava entre um evento e outro”, conta. Apaixonado pela festa, ele se acostumou a vivê-la a um metro de distância do chão, tamanho da sua perna-de-pau, desde que assumiu a função de pernalta, em 2016. “O que me despertou foi o cortejo do Céu na Terra. Quando vi aquele colorido descendo as ladeiras de Santa Teresa, embalado por marchinhas, me apaixonei”, recorda-se. De tão empenhado, passou a se apresentar em festas particulares, e os primeiros meses do ano são os mais rentáveis. Entre janeiro e fevereiro de 2020, faturou R$ 12 mil.

O pernalta Anilson Costa é apaixonado pelos blocos de rua Foto: Leo Martins / Agência O Globo
O pernalta Anilson Costa é apaixonado pelos blocos de rua Foto: Leo Martins / Agência O Globo

A grana certamente fará falta neste 2021, mas o folião profissional não se abateu. Criou uma performance em que caminha sozinho pelas ruas de Santa Teresa, usando as pernas-de-pau, o inseparável regador de purpurina, máscara e uma caixa de som tocando marchinhas. “Os moradores ficam emocionados”, conta. “O sentimento que tenho é de fé. Isso vai passar. No ano que vem, botaremos o bloco na rua.”

Luiza Brunet, habitué do baile do copa

Foi no comecinho dos anos 1980 que a empresária Luiza Brunet saracoteou, pela primeira vez, pelos salões do Baile do Copa. “Eu era modelo da Dijon e tinha que estar sempre nos lugares mais icônicos do Rio”, conta. Desde então, virou habitué da festa, onde já “topou” com nomes internacionais como Quincy Jones, Gerard Butler e, mais recentemente, a xeica Mozah bint Nasser al-Missned, do Qatar. “Fiquei louca quando a vi. Mas ela estava inacessível, cheia de seguranças”, recorda-se.

A modelo e empresária Luiza Brunet frequenta o baile do Copa desde os anos 1980 Foto: Leo Martins / Agência O Globo
A modelo e empresária Luiza Brunet frequenta o baile do Copa desde os anos 1980 Foto: Leo Martins / Agência O Globo

Rainha de vários carnavais na Avenida, Luiza também carregou, em 2011, a coroa na noite momesca do hotel. “Foi maravilhoso. Você é solicitada o tempo todo, sobe no palco, posa para fotos. É diferente do Sambódromo, onde há várias rainhas para você competir”, diverte-se. Mesmo se quisesse, Luiza não conseguiria ficar de fora da festa. “Quando dizia que não ia ao baile, mandavam me buscar em casa.” Numa dessas ocasiões, adaptou, em cima da hora, um vestido Jean Paul Gaultier que já havia usado na festa. “Da primeira vez, tinha aplicado umas flores em cima. Então, só as tirei, passei um vaporizador e coloquei umas joias. Ninguém percebeu.” Perguntada sobre como imagina o baile do ano que vem, responde ligeira: “Vai estar abarrotado de gente. E eu, com certeza, vou estar no meio.”

Quinho, 30 anos de Salgueiro

“Quando chegar fevereiro, vai ser complicado. Sou emotivo e vou às lágrimas.” Aos 63 anos, Quinho, uma das vozes mais potentes — e amadas — da Sapucaí, não esconde a melancolia de um ano sem carnaval, embora considere justo o cancelamento. “Desde que comecei a desfilar, como ritmista da União da Ilha, em 1974, vai ser a primeira vez em que não irei à Avenida. Nunca imaginei passar por isso”, desabafa. E olha que este ano ele completaria, “entre idas e vindas”, três décadas de Salgueiro, escola onde ganhou ainda mais notoriedade, depois de interpretar enredos icônicos da União da Ilha, como “Aquarela do Brasil” e “Festa profana”, na década de 1980.

O intérprete Quinho completa 30 anos de Salgueiro Foto: Leo Martins / Agência O Globo
O intérprete Quinho completa 30 anos de Salgueiro Foto: Leo Martins / Agência O Globo

Sempre que a saudade aperta, Quinho corre para o YouTube e desanda a assistir desfiles memoráveis. E sabe, no seu íntimo, que outras apresentações inesquecíveis virão. “Enquanto eu tiver voz e pulmão, estarei na Avenida, cantando. Quando não for mais possível, já falei para separar o meu lugar na Velha Guarda.”

Marcelo Rodrigues, bate-bola, com orgulho

Sob a sombra de uma mangueira, num quintal de muros baixos em Guadalupe, na Zona Norte, está o ateliê de Marcelo Rodrigues da Silva. É lá que o designer gráfico, de 52 anos, produz boa parte das fantasias da Turma do Índio, grupo de bate-bolas fundado por ele em 1988. “Ganhei a primeira fantasia em 1977, quando tinha 9 anos, e não parei mais”, conta. Com um conceito inspirado no pierrô, Marcelo trocou as barulhentas bexigas usadas para “assustar” por sombrinhas que ajudam a cortejar, numa performance que se repete sempre aos domingos de carnaval, pelas ruas do bairro.

Marcelo Rodrigues criou a Turma do Índio, grupo de bate-bolas Foto: Leo Martins / Agência O Globo
Marcelo Rodrigues criou a Turma do Índio, grupo de bate-bolas Foto: Leo Martins / Agência O Globo

Neste período do ano, o ateliê estaria apinhado de gente trabalhando na produção das fantasias e Marcelo envolvido com trabalhos que rendem receitas para ele e para a própria turma. Negar a realidade, e botar o bloco na rua, porém, está fora de cogitação. “O negócio é fingir que 2021 não existiu e continuar fazendo as fantasias para quando o carnaval chegar.”

Cynthia Howlett, duas décadas de Suvaco

Enquanto caminha por ruas de paralelepípedos do Jardim Botânico, a nutricionista Cynthia Howlett aponta para o lugar onde acontece a concentração do Suvaco do Cristo, olha para cima e lembra dos moradores que saúdam o cortejo das janelas e recorda-se até da parede onde tirou uma foto ao fim do desfile, no ano passado. Há duas décadas como porta-bandeira de um dos blocos mais fervorosos da cidade, ela está com saudade do carnaval.

Cynthia Howlett é porta-bandeira do Suvaco do Cristo Foto: Leo Martins / Agência O Globo
Cynthia Howlett é porta-bandeira do Suvaco do Cristo Foto: Leo Martins / Agência O Globo

Mas a moça também reconhece que está mais preocupada com outros aspectos. “Nunca deixei de desfilar, nem quando estava grávida de oito meses”, conta. “Mas estamos passando por um momento tão difícil que não tem clima. Por mais que a gente queira estar na rua, do jeito que está, não dá. Estou mais apreensiva com a vacina.” Com o vestido usado no carnaval passado em mãos, imagina que a folia no ano que vem será catártica. Ao fim da conversa, repete como um mantra: “Vamos esperar para fazer a coisa com segurança”.

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