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Friday, November 26, 2021

Luana Génot: Pós-cancelamento

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O Globo Foto: O Globo



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Nem toda pessoa negra pensa igual. Não dá para esperar que todas saibam tudo sobre cor, raça ou falem de modo profundo sobre racismo, colorismo e outras questões

Sei que o mundo real é, de longe, bem mais complexo e com menos filtros do que o que vemos em reality shows como o “BBB”. E você sempre terá a opção de assistir ou, como eu, dizer que não vai assistir, mas ter amigos que pedem sua opinião. Aí acaba tendo que correr atrás para saber o que aconteceu. Não dá para ignorar algumas reflexões que podemos tirar das primeiras semanas do programa. Falo isso sob a ótica de questões de diversidade e inclusão. O que me vem à cabeça:

1. No primeiro “BBB” em que finalmente há 50% de participantes negros, representação demográfica justa e próxima ao que é o Brasil, aprendemos que mesmo um pequeno grupo de pessoas negras congrega bastante complexidade. E se para a sociedade a cor da pele deveria ser sinônimo de homogeneidade de pensamentos, observamos o contrário. Nem toda pessoa negra pensa igual. Se um grupo pequeno não pensa da mesma forma, imagine 118 milhões que temos no Brasil? Pois é! Não dá para esperar que todas saibam tudo sobre cor, raça ou falem de modo profundo sobre racismo, colorismo e outras questões. É tão absurdo esperar isso de pessoas negras quanto esperar que todos os brancos saibam falar sobre privilégio.

2. É importante reforçar que pessoas negras também erram e precisam arcar com as consequências. Neste caso, perda de seguidores, contratos… Pessoas estranham ao ver uma mulher preta famosa, com tranças e looks superdescolados, usar frases que possam reverberar discriminações vexatórias de diferentes formas, contribuindo para a construção de um ambiente tóxico. Parece surpreender a imagem de uma pessoa negra que discrimine. Tenho escutado o seguinte questionamento: “Ela não deveria ser a primeira a defender a igualdade, sendo negra?” É o que se espera. Mas até esta expectativa quase exacerbada sobre pessoas negras e o entendimento que não possam errar é parte da estrutura racista que enxerga os negros como um e não como uma massa heterogênea. Mulheres também reproduzem o machismo. Negros também reproduzem o racismo. Todos somos atravessados por múltiplos discursos (que, por vezes, se contradizem). Já é sabido que uma pessoa negra precisa fazer o dobro de esforço para chegar a algum lugar. Além disso, também precisa levar em conta que, se errar e for cancelada, será cancelada ao quadrado, especialmente pelo peso da representatividade que carrega. Há poucas pessoas negras proporcionalmente em posições de destaque. Logo, se errar todos verão este erro como se todo o grupo tivesse falhado. Mas não deve e não pode ser assim.

3. A inclusão é um exercício contínuo. E não vale minimizar a percepção do outro (não é mimimi). Quando o “BBB” finalmente chegou a representar negros, vemos que ainda não tem, por exemplo, nenhuma pessoa com deficiência ou representantes indígenas entre os participantes. Sempre haverá espaço para incluir mais grupos sub-representados. Vamos agora lutar por essas aberturas dentro e fora do “BBB”?

4. Enquanto a casa vigiada estava pegando fogo, aqui fora, numa outra casa, cujo ambiente parece ser bem tóxico e que deveria ser tão vigiada quanto, acontecia a passagem de bastão para um novo presidente da Câmara mais aberto a aprovar pautas conservadoras. Será que nossa vigilância não está sendo colocada de modo exacerbado no lugar errado, sobretudo se quisermos que causas estruturais avancem de verdade, ou ainda se desejarmos colocar a Covid-19 e a corrupção no paredão?

Dentro ou fora do “BBB”, precisamos enxergar os episódios que acontecem para além do calor do momento e de cancelamentos. Devemos entender que o problema é a estrutura, não as pessoas. Que tal nos empenharmos em construir e manter estruturas mais acolhedoras e abertas ao diálogo e à constante reconstrução e driblarmos o imediatismo dos paredões da vida?

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