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Sunday, October 17, 2021

Livro conta história do espião desconhecido que fez Stalin vencer a guerra

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Jornalista descobriu novos documentos sobre Richard Sorge, agente soviético que inicialmente foi desacreditado pelo ditador, mas depois evitou a tomada de Moscou pelos nazistas

Guillermo Altares, do El País

19/02/2021 – 07:00

O espião Richard Sorge, no Japão, em 1938
Foto: Ullstein Bild via Getty Images
O espião Richard Sorge, no Japão, em 1938
Foto: Ullstein Bild via Getty Images

MADRI — As guerras não são vencidas apenas no campo de batalha, mas também no mundo escorregadio e perigoso da espionagem. Na Segunda Guerra Mundial, alguns agentes solitários eram tão importantes quanto divisões inteiras. Um deles foi Richard Sorge, que obteve informações cruciais sobre o desenvolvimento do conflito – que a Alemanha nazista iria invadir a URSS em junho de 1941 –, mas Stalin não acreditou nele. Porém, pouco depois, ele fez outra descoberta excepcional: que o Japão não iria invadir a União Soviética pela Sibéria e que, portanto, o Exército Vermelho poderia alocar todas as tropas necessárias para salvar Moscou, então prestes a cair nas mãos dos nazistas. Esse movimento mudou o curso da guerra e da história.

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O jornalista britânico Owen Matthews, veterano correspondente em Moscou e escritor especializado em temas russos, acaba de publicar “An impeccable spy” (“Um espião impecável”, em tradução livre), no qual traça a vida de Sorge, um agente soviético instalado em Tóquio e com fontes extraordinárias. Sorge foi um dos espiões mais famosos da Segunda Guerra Mundial, mas Matthews lidou com relatórios que não tinham sido tocados até agora, retirados dos arquivos soviéticos. Um único fato resume a sua importância: ele foi certamente a única pessoa em todo o conflito que estava a um único grau de distância de Adolf Hitler, do primeiro-ministro japonês, príncipe Konoe, e do próprio Stalin. Ele tinha uma relação direta com as fontes que, por sua vez, falavam com eles.

— É muito difícil pensar em um espião tão bem relacionado — explica Owen Matthews, de 49 anos, em uma videochamada de Oxford. — Talvez Kim Philby [um dos mais importantes agentes duplos da Guerra Fria] tenha sido o único que conseguiu algo semelhante, porque foi o oficial de ligação entre o MI6, o serviço secreto britânico, e o governo dos Estados Unidos. Mas ainda era uma relação profissional. Não é que Sorge estivesse a um grau de distância de todos os atores da Segunda Guerra Mundial. Ele teve contato direto e constante com importantes funcionários alemães e foi muito competente ao estabelecer uma relação direta com o embaixador e com muitas pessoas que confiaram nele.

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Nascido em Baku em 4 de outubro de 1895 de uma família alemã, ele se mudou para seu país quando era criança. Sorge lutou na Primeira Guerra Mundial e foi ferido na perna, o que o fez mancar permanentemente, embora também tenha conseguido uma Cruz de Ferro (condecoração militar alemã). Ele se tornou um militante comunista em 1919 e dedicou toda a sua vida a essa ideologia. Espionou para a URSS em seu próprio país e depois em Xangai, onde foi amante de outra agente famosa, Ursula Kuczynski, sobre quem Ben Macintyre, autor de um famoso livro sobre Kim Philby, acaba de publicar a biografia “Agent Sonya” (“Agente Sonya”), a ser lançado em abril.

Depois de construir uma consistente fachada como nazista e como jornalista, ele se estabeleceu em Tóquio em 1933, onde fez amizade com o militar alemão Eugen Ott, que acabaria sendo embaixador em um momento crucial para o Terceiro Reich: quando os nazistas queriam fazer tudo o que fosse possível para que o Japão entrasse na guerra. Apesar de Sorge se comportar como um completo irresponsável, devido às suas festas e seus constantes romances, ele só foi descoberto em outubro de 1941, por um acaso que nada teve a ver com seu problema com o álcool. O espião foi enforcado em 1944.

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Um fato que ilustra muito a maneira de Sorge de agir foi o momento em que os nazistas enviaram o carrasco Josef Meisinger, conhecido como ‘O Açougueiro de Varsóvia’ por sua crueldade, para investigá-lo e os dois acabaram se tornando amigos e companheiros de festa.

— O título é baseado em uma frase de Kim Philby, que disse que o trabalho de Sorge era impecável. Mas, ao ler o livro, você vê que o título é irônico porque, na verdade, ele era irresponsável no trabalho. Não há uma explicação realmente convincente do motivo dele não ter sido descoberto antes: ele teve muita sorte e, acima de tudo, muitas pessoas pensaram que ele era um espião, mas dos alemães. Ele tinha relações muito próximas com os serviços secretos nazistas. Quando, por exemplo, no dia da invasão nazista da URSS, ele se embriagou e, diante da comunidade nazista em Tóquio, subiu em uma mesa e começou a gritar que esse seria o fim de Hitler, todos riram como se isso fosse uma piada.

Sorge administrou uma eficaz rede de espionagem no Japão, que caiu com ele quando foi descoberto.

Foi em Tóquio que Sorge obteve uma informação crucial: que, apesar do pacto com Stalin, Hitler iria invadir a URSS em 22 de junho de 1941, na chamada Operação Barbarossa. Mas o líder soviético, no auge de sua paranoia assassina, depois de ter ordenado a execução de milhares de oficiais e espiões do Exército Vermelho, não acreditou nele. Também contribuiu para o ceticismo do líder soviético que seus principais conselheiros rebaixassem a informação por medo de sua ira. No entanto, assim que viram que Sorge estava certo, compraram sua segunda informação-chave: que o Japão não invadiria a URSS.

— O interessante de escrever este livro é que ninguém jamais contou o lado soviético da história — diz Matthews. — Há uma coisa que se repete em muitas histórias de espionagem: você pode ter excelentes agentes em campo, que lhes fornecem informações muito boas, mas se você não sabe como usar essas informações, não vale a pena. Em 1941, a atmosfera de suspeita na espionagem soviética era tão profunda que ninguém acreditava em nada. Foi o que aconteceu com Sorge: por um lado, eles desconfiavam dele, por outro, algumas de suas informações eram utilizadas por serem muito sólidas. A história de Stalin, que não acreditou nem em Sorge nem nos 18 outros agentes que também, embora com menos precisão, o alertaram sobre a Operação Barbarrosa, é um exemplo claro da chamada visão de túnel: a incapacidade de acreditar em algo que não confirma seus preconceitos. É algo que ocorre em todos os regimes totalitários, incluindo o de Putin.

Há uma parte da história de Sorge que se cruza com a do autor de sua biografia. A avó da esposa de Matthews, que é russa, tinha uma casa de campo nos arredores de Moscou. Em novembro de 1941, as tropas alemãs estavam a apenas dois quilômetros daquela casa e se preparavam para lançar a ofensiva final em Moscou. No entanto, quando tudo parecia perdido, milhares de soldados siberianos apareceram, interrompendo a ofensiva nazista. Aquela mulher, que morreu em 2017, recordava-se de ter ouvido, de repente, um barulho estranho e estrondoso: era o ronco das tropas siberianas, que dormiam na neve. Aqueles siberianos estavam lá graças à informação que Sorge descobriu.

— Quase toda a espionagem do século 20 se resume à detecção da atividade de outros espiões: um agente trai outros agentes, como George Blake ou Kim Philby. O impacto de sua inteligência é tático, não estratégico. Sorge foi uma exceção. De Gaulle detestava espiões e falava sobre as “pequenas histórias de espionagem”. Mas Sorge não era uma pequena história. Ele tinha informações essenciais que mudaram a história.

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