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Thursday, October 28, 2021

'Kaputt': testemunho brutal e comovente da Europa sob domínio nazista

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Em híbrido de romance e livro de memórias, italiano Curzio Malaparte traça painel dos horrores da guerra

Jerônimo Teixeira, especial para O GLOBO

27/09/2021 – 20:03 / Atualizado em 27/09/2021 – 20:29

Residentes de Danzig após a cidade ser liberada dos naxistas por tropas soviéticas em 1945 Foto: ARKADYI SHAIKHET / Agência O Globo
Residentes de Danzig após a cidade ser liberada dos naxistas por tropas soviéticas em 1945 Foto: ARKADYI SHAIKHET / Agência O Globo

Correspondente de guerra incumbido de cobrir a ofensiva nazista contra a União Soviética, o italiano Curzio Malaparte (1898-1957) estava em Jassy, cidade da Romênia, no fim de junho de 1941, quando teve início o massacre da população judaica local, a mando do governo romeno, aliado da Alemanha. No ano seguinte, em Varsóvia, o jornalista narrou os eventos da primeira noite do pogrom, quando sete mil judeus foram assassinados, a um seleto grupo de altos oficiais alemães — entre eles, Hans Frank, governador da Polônia ocupada. Frank considerou sete mil mortos “um número respeitável”, mas reprovou a forma pouco “científica” com que o massacre fora conduzido. Os alemães abominam “métodos bárbaros”, ao contrário dos romenos, que não são civilizados, postulava Frank, concluindo com um argumento linguístico: “Pogrom não é uma palavra alemã.” De fato, a palavra “genocídio” seria mais apropriada para descrever o extermínio em escala industrial conduzido pelos nazistas, mas esse termo só se tornou corrente depois da Segunda Guerra Mundial. Hans Frank, aliás, seria condenado à morte por crimes contra a Humanidade nos julgamentos de Nuremberg.

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Malaparte publicou no jornal Corriere della Sera a notícia do pogrom em Jassy e a crônica dos saraus em que Hans Frank tocava Chopin ao piano antes de guiar seus convidados em passeios noturnos pelo gueto de Varsóvia. Em 1944, esses episódios ganhariam uma versão mais poderosa e perturbadora em “Kaputt”, livro em que o escritor italiano plasmou todo o horror, a miséria e a devastação que testemunhara entre 1941 e 1943, em incursões na Ucrânia, na Finlândia e na antiga Iugoslávia, entre outras praças de guerra. Relançado agora no Brasil, em nova tradução de Federico Carotti, depois de anos ausente das livrarias brasileiras, “Kaputt”, híbrido de romance e livro de memórias, é uma das mais extraordinárias narrativas de guerra do século XX — um painel brutal mas também comovente da catástrofe em que a Europa imergiu sob domínio do nazifascismo.

Pintando o sofrimento cm preciocismo

O título é um termo alemão que significa “quebrado, destruído”, cuja origem, segundo Malaparte, seria “Koppâroth”, palavra hebraica para “vítima”. Da melancólica senhora italiana que se joga de uma janela para se libertar do casamento opressivo com um diplomata alemão às judias cativas de um bordel nazista na Moldávia; dos prisioneiros soviéticos submetidos por seus captores a uma sinistra prova de leitura às multidões famélicas da Napóles arrasada por bombardeios, as vítimas e seus sofrimentos constituem o tema central de “Kaputt”.

O sofrimento não é apenas humano: Malaparte contempla também a dor de cães, cavalos, gatos. Há até um episódio cômico cujo herói é um pobre salmão da Lapônia perseguido por um general pescador. Na passagem mais surreal do livro, centenas de cavalos em fuga durante combates entre finlandeses e soviéticos acabam congelados nas águas do lago Ladoga, na Carélia.

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Esses e outros casos tétricos — o vagão carregado de cadáveres de judeus em uma estação romena; a cesta cheia de olhos humanos que Ante Palevic, ditador da Croácia e aliado da Alemanha, mantinha sobre a mesa do escritório— são apresentados sem ordem cronológica rigorosa, em quadros que o autor pinta com preciosismo estético. Na descrição de batalhas, ouve-se por vezes aquela nota fria e metálica que já se encontrava na obra de outros escritores-soldados, como o alemão Ernst Jünger e o russo Isaac Bábel. “Kaputt” torna-se tanto mais chocante porque suas histórias de mortandade e miséria vêm entremeadas por tardes no clube do golfe e jantares elegantes nos quais o vinho da Borgonha cintila em copos de cristal.

Malaparte foi um homem mundano, um admirador de Marcel Proust que talvez houvesse criado uma literatura mais delicada, se sua vida não fosse atravessada por duas guerras mundiais.

Biografia sombria

Sua biografia também tem zonas sombrias. Filho de mãe italiana e pai alemão — de batismo, ele se chamava Kurt Erich Suckert, que tomou Malaparte como pseudônimo —, esse ex-combatente da Primeira Guerra foi, nos anos 1920, um fervoroso militante fascista, até cair em desgraça com o partido e amargar vários períodos de prisão em Roma (curiosamente, ele se converteu ao comunismo no pós-guerra). Talvez fosse de se esperar que, em um livro narrado em primeira pessoa, um autor com passado tão sujo apresentasse seu mea culpa. Malaparte, porém, preferiu se apresentar como um homem meio compassivo, meio cínico, que confraternizava com fascistas e nazistas mas se solidarizava com os povos oprimidos.

De todo modo, em “Kaputt” (e no posterior “A pele”, publicado no Brasil pela editora Autêntica), Malaparte presta sua homenagem às vítimas, enquanto disseca a psicologia patológica de carrascos como Hans Frank — os alemães, diz o autor, são movidos pelo medo não da morte, mas “de tudo o que é vivo” e “de tudo que é diferente deles”. “Kaputt” também denuncia a complacência abjeta com que as “classes conservadoras” (expressão do autor) responderam ao fascismo na Itália. Os piores pesadelos da História, sugere Curzio Malaparte, têm a exata dimensão da covardia das elites.

Capa de
Capa de “Kaputt” Foto: Divulgação

KAPUTT

Autor:
Curzio Malaparte. Tradução: Federico Carotti. Editora: Alfaguara. Páginas: 512. Preço: R$ 99,90. Avaliação: ótimo

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