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Monday, September 27, 2021

Fatigue

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Bruno Astuto png Foto: OGlobo

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A convivência inibe certos abusos que uma pessoa não cometeria tão abertamente caso não estivesse atrás de uma tela

Epa, lançaram a minha biografia? Ao deparar com o título do novo livro da psicoterapeuta e consultora especializada em negócios corporativos Naomi Shragai, confesso que a pretensão (rapidamente derrubada) me pegou por alguns instantes. “The man who mistook his job for his life” (O homem que confundiu seu trabalho com sua vida, ainda sem tradução no Brasil) talvez seja a ressonância magnética do cotidiano de muitas pessoas ao longo deste período pandêmico.

O objetivo do livro é dissecar como nós — e nossos colegas — projetamos no ambiente de trabalho experiências, traumas, conflitos e expectativas trazidas da vida pessoal e da mais tenra infância. São exemplos a síndrome de impostor gerada pela maneira como nossas famílias reagiram aos nossos êxitos e fracassos; a relação com chefes na qual se buscam a autoridade ou o carinho dos pais; a dificuldade em confrontar superiores ou colegas tóxicos para evitar reviver situações de bullying sofridas na escola; a ilusão de que sua validação como pessoa na sociedade se resume à performance no emprego. Por meio de muitos exemplos e histórias, a autora desafia os leitores a repensar os padrões pessoais que contaminam a luta pelo pão de cada dia. Tudo isso está mais ligado ao mundo pré-pandêmico, mas, segundo ela, a crise da Covid até potencializou alguns aspectos, uma vez que a convivência presencial inibe certos abusos que uma pessoa não cometeria tão abertamente caso não estivesse atrás de uma tela.

Entre as muitas “certezas” nascidas com a Covid, está a de que o home office veio para ficar. Tomara que não. As trocas intelectuais e experiências sociais com os colegas são um dos pilares da saúde mental, fora o alívio de atravessar a porta de casa para encontrar uma pausa e um refúgio. Em muitas empresas, a produtividade do trabalho remoto até aumentou, mas a que custo? Talvez o da ansiedade de nos mostrarmos presentes, disponíveis, relevantes e indispensáveis durante um período que exige de nós bravura e criatividade inimagináveis pela sobrevivência física, mas também pela das companhias e dos empregos.

Ninguém quis ser arrastado para este mundo de avatares, e imagine como foi bem pior 100 anos atrás, quando a pandemia de gripe espanhola trancou todo mundo em casa sem WhatsApp ou computadores. Mas a vida pede interações reais, que só voltarão a pleno vapor com a vacinação geral. E, até lá, com atitudes responsáveis da sociedade (porque de certos governantes já abstraí), para evitar mais lockdowns.

Em 2014, um artigo na revista científica International Journal of Human-Computer Studies já se debruçava sobre os efeitos das videochamadas. Os pesquisadores concluíram que a dispersão na atenção é causada por um atraso superior a 1,2 segundo na nossa percepção quando interagimos por um aparelho e pela sensação de não nos comunicarmos direito — uma vez que, sem mirar diretamente a câmera, não olhamos de fato nos olhos dos interlocutores. Isso gera uma ansiedade corrosiva, aquela que vai lentamente se instalando. Sem contar que utilizar uma mesma ferramenta para trabalhar, estudar ou se distrair confunde o cérebro, condicionado a compartimentar os diferentes cenários sociais.

Um estudo publicado em fevereiro pela Universidade de Standford (Estados Unidos) mostrou aquilo que neste ponto todos nós já sabemos: o excesso de videochamadas é prejudicial à saúde. A síndrome já ganhou até um nome, “zoom fatigue”, com sintomas que vão de crises de ansiedade e irritabilidade a dores de cabeça e depressão. Isso levou o próprio Zoom a publicar um manual de boas práticas, como desligar a câmera de vez em quando, levantar-se a cada 15 minutos, não encavalar reuniões, trocar fundos de tela, tornar as reuniões mais ágeis e producentes e — veja só como o mundo dá voltas — telefonar de vez em quando, em vez de fazer uma chamada por vídeo ou teclar no Whatsapp.

No fim das contas, é até irônico que o livro convide à reflexão contrária: sobre o homem que confundiu sua vida com seu trabalho.

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