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Thursday, October 28, 2021

Em primeira reunião presencial, líderes do Quarteto buscam iniciativas para conter a China na Ásia

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EUA, Austrália, Japão e Índia discutem parcerias em temas estratégicos, como vacinas e cadeias de suprimentos; encontro ocorre em meio à crise provocada pelo novo pacto de segurança regional para o Pacífico

O Globo e agências internacionais

24/09/2021 – 20:25 / Atualizado em 24/09/2021 – 20:28

Reunião de líderes do Quarteto, formado por EUA, Japão, Índia e Austrália, na Casa Branca Foto: EVELYN HOCKSTEIN / REUTERS
Reunião de líderes do Quarteto, formado por EUA, Japão, Índia e Austrália, na Casa Branca Foto: EVELYN HOCKSTEIN / REUTERS

WASHINGTON — Líderes de EUA, Índia, Austrália e Japão, integrantes do chamado Quarteto se reuniram presencialmente pela primeira vez desde a retomada da iniciativa, para firmar compromissos em campos estratégicos em comum. O grupo é uma das formas encontradas pelos EUA para confrontar a China na região Indo-Pacífica, ponto central da diplomacia de Joe Biden, mas é visto como desdém por Pequim e receio por vários países da área.

— Esse grupo de parceiros democráticos que compartilham uma visão de mundo e têm uma ideia similar para o futuro, se unindo para enfrentar desafios de nossa era, desde a Covid-19, passando pelas mudanças climáticas e novas tecnologias — declarou o presidente americano Joe Biden, na abertura do encontro na Casa Branca.

A reunião desta sexta-feira serviu para confirmar alguns dos compromissos feitos pelos países há seis meses, quando se reuniram pela primeira vez, de maneira virtual. Um deles é relacionado à pandemia: no primeiro encontro, os líderes se comprometeram a fornecer um bilhão de doses de vacinas à Ásia até o final de 2022, um contraponto à “diplomacia das vacinas” conduzida pela China.

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O plano é usar a capacidade de produção de imunizantes da Índia, com financiamento americano e japonês, para cumprir a promessa — o governo indiano agora se diz pronto para retomar as exportações de vacina, depois de reter todas as doses para enfrentar uma devastadora onda de infecções entre abril e maio.

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Os líderes também discutem planos para tecnologias consideradas estratégicas e soluções para problemas na cadeia global de suprimentos. O objetivo, especialmente de Biden, é criar um consenso sobre as redes de 5G, uma tecnologia dominada pelos chineses, e cujo avanço no mundo os americanos tentam atrasar. Há ainda planos para estabilizar o fornecimento de semicondutores, essenciais para a indústria e cujo fornecimento enfrentou problemas recentes, ressaltados pelo presidente americano em diversas ocasiões.

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Há ainda a proposta para futuras linhas de financiamento em infraestrutura e conectividade para países da região, servindo como uma espécie de contraponto à Iniciativa Cinturão e Rota, uma gigantesca estratégia de financiamento do governo chinês na Ásia, Europa e Ásia, para, nas palavras de Pequim, reforçar o papel central do país no cenário global. No caso do quarteto, contudo, os planos ainda são embrionários.

‘Guerra fria’

Criado em 2007 e brevemente ressuscitado em 2017, o Quarteto em sua versão 2021 se insere em uma mudança da visão estratégica da diplomacia americana, com planos de reduzir sua presença em cenários como o Oriente Médio e priorizar a Ásia, especialmente o que a Casa Branca vê como um arriscado avanço da China.

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Para Biden, não basta estabelecer uma presença americana na região, mas sim trazer para perto antigos aliados, alguns negligenciados durante os anos de diplomacia isolacionista de Donald Trump, e fortalecer esses laços e a cooperação multilateral. Ao mesmo tempo, ele manteve a linha de confronto com Pequim de seu antecessor, e já declarou que a China é uma grande competidora.

Antes da reunião, o porta-voz da chancelaria chinesa, Zhao Lijian voltou a criticar a iniciativa;

— Um grupo fechado e exclusivo, que tenta atingir outros países, vai contra a corrente atual e as aspirações de nações da região. Isso não vai encontrar apoio e está destinada a fracassar — afirmou.

Um ponto marcante no Quarteto é a ênfase que seus integrantes dão ao fato da aliança não ter um caráter de defesa, muito embora já realizem exercícios militares na região, como no Mar do Sul da China, alvo de disputas territoriais envolvendo Pequim. O próprio mote do grupo, repetido à exaustão por Biden, é a manutenção de um Indo-Pacífico “livre e aberto”.

Nações asiáticas temem que a iniciativa aumente os riscos de escalada envolvendo a China, com impactos para toda a região — o medo foi ampliado após o anúncio de um novo pacto militar envolvendo EUA, Reino Unido e Austrália, que provocou abalos sensíveis além da Ásia.

Pelo plano, os três países, agora reunidos sob a alcunha Aukus, passariam a compartilhar novas tecnologias, estratégias e treinamentos de defesa — além disso, pelo plano a Austrália receberia uma nova frota de submarinos de propulsão nuclear, passando a integrar um seleto “clube” de nações que possuem esse tipo de equipamento.

A China, principal alvo da nova aliança, disse que os três países ainda pensam com uma “mentalidade de guerra fria”. Nações da União Europeia também não viram com bons olhos a iniciativa que, embora centrada na região Indo-Pacífica, ignorou o bloco em sua elaboração. Alguns líderes também viram ali um alerta para que investissem mais na própria segurança, e não dependessem tanto de forças externas, um recado aos EUA.

‘Facada nas costas’

Mas ninguém reagiu de forma tão incisiva como a França. Em 2016, o país havia fechado um acordo com o governo australiano para o fornecimento de submarinos de propulsão convencional ao custo de US$ 40 bilhões. Com os submarinos nucleares, o acerto foi abandonado, e Paris declarou que o movimento foi como uma “facada nas costas”.

Em seguida, os franceses retiraram seus embaixadores de Washington e Camberra, uma ação revertida depois de um telefonema de Joe Biden a Emmanuel Macron, esta semana. Mas na quinta-feira, depois de reunião com o secretário de Estado, Antony Blinken, o chanceler francês, Jean-Yves Le Drian, disse que a recuperação plena da confiança entre os dois lados “levaria tempo” e “demandaria ações”.

Nesta sexta-feira, em entrevista ao Financial Times, Christoph Heusgen, ex-conselheiro de política externa da chanceler alemã Angela Merkel, declarou que o acordo foi um “insulto a um parceiro da Otan”, se referindo à França, e que o pacto resultou em uma “grande perda de confiança” no governo Biden.

— Não sei se essa perda será suficientemente equilibrada pelo suposto reforço na segurança regional — declarou Heusgen. — [O anúncio do pacto] foi muito irritante porque se esperava que Biden, com base em suas declarações públicas, adotasse um estilo diferente do visto com Trump, em termos de cooperação com seus parceiros.

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