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Friday, June 18, 2021

Crítica | 'O conformista' (1970), de Bernardo Bertolucci, e a doce vida de um canalha

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Nos últimos anos, com a ascensão da extrema-direita pelo mundo, o fantasma do fascismo voltou a assombrar o imaginário coletivo. No Brasil, livros refletindo sobre o tema reaparecem nas editoras, seja com novas traduções de autores já consagrados como Theodor Adorno (a Unesp acaba de lançar “Aspectos do novo radicalismo de direita”, palestra proferida por este autor em 1967), seja com apontamentos renovados, sob a luz da contemporaneidade, como indica uma onda de obras sobre as origens do autoritarismo brasileiro e o integralismo. O certo é que, desde os anos 1970, nunca se falou tanto sobre fascismo.

Neste contexto, o cinema italiano volta a chamar atenção. E não me parece uma coincidência o Sesc ter disponibilizado em sua plataforma digital dois clássicos que têm o período de Mussolini como mote: “De Crápula A Herói” (1959), de Roberto Rossellini, e “O conformista” (1970), de Bernardo Bertolucci. Destaco este segundo filme porque seu foco é justamente a formação de uma personalidade fascista, a partir da história de Marcello Clerici (Jean-Louis Trintignant), fruto de uma família disfuncional, que coloca toda sua energia em ter uma vida “normal”. Ele exerce um cargo público de confiança em um regime autoritário, o que implica em cumplicidade e participação nos crimes cometidos pelo Estado.

Perseguindo seu ideal de vida burguesa, Clerici se casa com uma jovem fútil de uma família estabelecida, buscando, assim, reconhecimento social. Ele é convocado pelo governo para aproximar-se e assassinar um antigo professor de sua faculdade, militante antifascista, que vive com a jovem esposa no exílio em Paris. Viaja em lua de mel para a França, onde entra em contato com o ex-professor e sua esposa, pela qual se sente atraído.

O que está em jogo são as escolhas de Marcello e suas responsabilidades diante delas, um tema caro a uma sociedade que saíra recentemente do autoritarismo, após traumática guerra mundial, e assiste à impunidade de muitas pessoas que voltavam à vida pública, após anos de conivência e participação no regime despótico. Este é o tema de muitas reflexões de Pier Paolo Pasolini, cineasta e escritor importante na vida cultural italiana, que realizou, pouco antes de ser morto, o polêmico “Saló ou os 120 dias de Sodoma” (1975), no qual denuncia de modo brutal a violência e a covardia fascista. Pasolini foi assassinado meses depois do lançamento do filme, uma morte até hoje mal explicada, tematizada em dois filmes: “Pasolini, Um Delito Italiano” (1995), de Marco Tullio Giordana, e “Pasolini” (2014), de Abel Ferrara.

“O conformista” é adaptação de obra homônima do escritor Alberto Moravia, expressão importante do existencialismo italiano e roteirista de diretores como Vittorio de Sica, Damiano Damiani, Alberto Lattuada, entre outros. Moravia é conhecido também pelo romance “O desprezo”, adaptado por Jean-Luc Godard em 1963, obra prima que tem em seu elenco o diretor Fritz Lang e a musa Brigitte Bardot.

Moravia foi um artista profundamente envolvido com as questões políticas e sociais de seu tempo. Representou para a Itália, guardadas as devidas proporções, o que foi Sartre para a França: símbolo de intelectual engajado, discutindo e buscando interferir no mundo a partir de sua arte. Ligado ao Partido Comunista Italiano, era, como seu amigo Pasolini, imune a qualquer patrulhamento, crítico do regime soviético e profundamente independente. Como ele disse em uma entrevista concedida ao final dos anos 1970, “um escritor só tem um dever: o de ser fiel a si mesmo”. E, ancorado nesta fidelidade, construiu uma obra que figura entre as mais importantes do século XX. “O conformista” é uma espécie de romance de formação de um fascista, com digressões sobre sua infância e vida familiar, mostrando sua amoralidade e covardia, cobertas pelo verniz discursiva de homem honrado, defensor da família e bons costumes.

“O conformista” talvez seja, ao lado de “A estratégia da Aranha” (1970), o grande trabalho de Bernardo Bertolucci. Lançados no mesmo ano, estes dois filmes têm alguns pontos em comum: tematizam a discussão sobre o fascismo e suas heranças; são adaptações de obras de grandes escritores (Alberto Moravia e Julio Cortazar); e foram ambos fotografados com esmero pelo mestre Vittorio Storaro. Não é exagero colocar Storaro como um dos maiores fotógrafos da história do cinema. Carrega uma profunda formação plástica, explicitada tanto na precisão de seus quadros, quanto no uso que faz das cores e no jogo de luz e sombras, construindo ambientações impecáveis. Em “O conformista”, ele acentua as temperaturas baixas no uso das cores, tendendo ao azul e, assim, cria uma atmosfera fria, que se relaciona diretamente com o caráter do protagonista.

Foi com Bertolucci que o fotógrafo chamou atenção mundial para seu talento e iniciou uma carreira internacional de sucesso, com destaque para os filmes que fez com Francis Ford Coppola (em especial “Apocalipse Now”, de 1979), Warren Beatty, Woody Allen, Carlos Saura, Paul Schrader, Afonso Arau, entre outros.

O fotógrafo já participara do primeiro grande sucesso de Bertolucci, “Antes da Revolução” (1974), como câmera. Mas foi com “O conformista” que assumiu o comando da fotografia dos filmes do diretor, posto que exerceria em mais sete ocasiões (“A estratégia da Aranha”-1970, “Último Tango em Paris”-1972, “1900”-1976, “La luna”-1979, “O último imperador”-1987, “O céu que nos protege”-1990 e “O pequeno Buda”-1993). Storaro tornou-se um dos mais cobiçados diretores de fotografia da indústria do cinema, indicado por quatro vezes ao Oscar e recebeu o prêmio em três ocasiões (por “Apocalipse Now”, “Reds” e “O último imperador”).

Bertolucci hoje é lembrado mais pelo comportamento imperdoável que teve – ele e Marlon Brando – com Maria Schneider, em “O último tango em Paris”, do que por seus filmes. Talvez seja o preço de seu erro. A polêmica se estabeleceu quando Schneider afirmou, em entrevista de 2007, que se sentiu humilhada e um “pouco estuprada” por Brando e pelo diretor na famigerada cena em que o ator usa manteiga para fazer sexo anal com a amante. A cena foi sugerida por Brando naquele mesmo dia e não estava no roteiro. Bertolucci a incorporou sem consultar a atriz. Schneider, muito jovem e insegura, fez a cena a contragosto e sentiu-se profundamente desrespeitada.

Ao contrário do que muitos dizem, não houve cenas reais de sexo no filme e o que mais impactou a vida particular da atriz, segundo ela afirmou na entrevista, foi menos a realização da cena, mas a repercussão mundial conquistada pela obra e o escândalo que gerou na época. Bertolucci assumiu em 2013 que fez a cena sem o consentimento de Schneider e que isso a magoou. A história ganhou força anos depois, com o terremoto do movimento “Me too” nos Estados Unidos, quando nem o diretor, nem Schneider, nem Brando estavam mais vivos para refletir sobre o tema.

O curioso é que ao olhar os trabalhos de Bertolucci como um todo, “O último tango” parece um passo atrás, um recuo comercial diante de um cinema que chegara ao seu ápice com “O conformista”. A partir de então, ele fez eventualmente bons filmes (em especial “1900”-1976, “Beleza roubada”-1996 e “Assédio”-1998), mas nenhum com a mesma força de suas obras iniciais.

“O conformista” é parte de um empenho coletivo do cinema italiano dos anos 1970 em compreender o fascismo e suas heranças, um momento do pós-guerra em que as contradições e conflitos se acirravam na política do país. Esforço compartilhado tanto pela velha guarda quanto por novos diretores, os filmes desta época apontariam caminhos diferentes do período neorrealista. Entre os muitos veteranos que se debruçaram sobre o tema do fascismo encontram-se Luchino Visconti (“Os deuses malditos” – 1969), Vittorio De Sica (“O Jardim dos Finzi-Contini”- 1970), o já citado Pier Paolo Pasolini e até mesmo Frederico Fellini com seu “Amarcord” (1973). Nestes filmes, de um modo geral, o foco central está na memória.

Na nova geração de diretores, que ganhara destaque a partir do final dos anos 1960, havia uma preocupação crescente com a “psicologia” e comportamento fascista, com a forma como os cidadãos acomodavam-se à violência e tomavam partido dela, destacando perfis despóticos e violentos que seguiam presentes nas instituições italianas. Entre esses “jovens” realizadores, destacavam-se, ao lado de Bertolucci, Elio Petri (“Investigação Sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita”-1969), Ettore Scola (“Um dia muito especial”-1977), Liliana Cavani (“O porteiro da noite”-1974), os irmão Tavianni (“A noite de São Lourenço”-1982), Francesco Rosi (“Cristo parou em Eboli”-1979), entre outros.

Este conjunto de obras deixou um legado significativo para o cinema mundial e ganha novo relevo hoje, em um momento em que perfis autoritários de extrema direita se fortalecem pelo mundo, inclusive na Itália. No Brasil a situação não é diferente e tornou-se corriqueiro cidadãos outrora pacatos converterem-se, da noite para o dia, tal qual em uma peça de Ionesco, em novos “rinocerontes”, bradando nas ruas pela volta à ditadura.

Talvez seja a hora de um esforço conjunto do cinema brasileiro, uma reflexão coletiva sobre nossas heranças autoritárias, seguindo o exemplo do cinema italiano dos anos 1970. Se não for suficiente para conter ímpetos despóticos, que resulte ao menos, como aconteceu no país de Moravia, em bom cinema e em memória de um tempo em que alguns ousaram enfrentar a violência fascista.

O conformista (1970), de Bernardo Bertolucci

Onde ver:

Cinema #EmCasaComSesc https://sesc.digital/conteudo/cinema-e-video/cinema-em-casa-com-sesc/o-conformista

* Thiago B. Mendonça é crítico de cinema, diretor e roteirista.

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