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Tuesday, May 18, 2021

Como o Partido Republicano se associou às milícias de extrema direita nos EUA

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LANSING, MICHIGAN — Dezenas de milicianos fortemente armados lotaram a Assembleia do estado americano de Michigan, na cidade de Lansing, em abril de 2020, para protestar contra uma ordem de permanência em casa, determinada pela governadora democrata para reduzir os impactos da pandemia do coronavírus Cantando e batendo os pés, eles interromperam a sessão legislativa, tentaram forçar o caminho para o prédio e brandiram rifles da galeria sobre os deputados e senadores estaduais.

Inicialmente, os líderes republicanos tiveram algumas dúvidas sobre seus novos aliados.

“A visão não estava boa. Da próxima vez, diga a eles para não trazerem armas”, reclamou Mike Shirkey, o líder da maioria no Senado estadual, de acordo com um dos organizadores do protesto. O republicano do alto escalão de Michigan, porém, mudou de ideia quando os milicianos disseraram que retornariam não só armados,  mas “dando autógrafos e distribuindo fuzis para o pessoal no gramado” da Assembleia.

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“Para seu crédito”, escreveu Jason Howland, o organizador do ato, em uma postagem nas redes sociais, Shirkey concordou em ajudar a causa e “falou em nosso próximo evento”.

Seguindo os sinais do presidente Donald Trump — que tuitoum “Liberte Michigan!“ —, o Partido Republicano local deu as boas-vindas ao apoio de grupos paramilitares. Membros proeminentes do partido formaram laços com milícias ou deram aprovação tácita a ativistas armados em uma série de comícios e confrontos em todo o estado. A invasão da Assembleia, agora, parece um presságio do ataque ao Capitólio, em Washington.

Enquanto o Senado começa a julgar Trump sob a acusação de incitar a invasão do Capitólio em 6 de janeiro, o que aconteceu em Michigan ajuda a explicar como, sob sua influência, os líderes partidários se alinharam com uma cultura miliciana para perseguir objetivos políticos.

Michigan tem uma longa tradição de tolerar as autodenominadas, milícias privadas, que são comuns no estado. Mas também é um campo de batalha eleitoral crítico que atrai muita atenção dos principais líderes partidários, e a aliança republicana com grupos paramilitares mostra como pode ser difícil para a liderança nacional do partido se livrar da sombra do ex-presidente e seu apelo a esse agressivo segmento de sua base.

— Sabíamos que haveria violência — disse a deputada federal democrata por Michigan Elissa Slotkin sobre o ataque de 6 de janeiro. 

Em entrevista na semana passada, ela afirmou que endossar táticas como milicianos com rifles assustando parlamentares estaduais “normaliza a violência”, prática que Michigan já conhece bem.

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Seis apoiadores de Trump do Michigan foram presos por ligação com a invasão do Capitólio. Um deles, um ex-fuzileiro naval acusado de espancar um policial do Capitólio com um taco de hóquei, havia se juntado a milicianos armados em um protesto organizado por republicanos de Michigan para tentar interromper a contagem de votos em Detroit.

A principal organizadora desse protesto, Meshawn Maddock, foi eleita, no sábado, copresidente do Partido Republicano estadual, uma dentre os quatro partidários de Trump que conquistaram cargos importantes.

Maddock ajudou a encher 19 ônibus em direção a Washington para o comício de Trump no início de janeiro e defendeu a invasão armada de abril à Assembleia de Michigan. Quando a deputada democrata Rashida Tlaib, que chegou aos EUA como refugiada da Somália, sugeriu na época que os manifestantes negros nunca teriam permissão para ameaçar legisladores assim, Maddock escreveu no Twitter: “Por favor, mostre-nos a ameaça?”. Ela continuou,: “Você acha que alguém armado é ameaçador? É um direito por uma razão, e a razão é você”.

Meshawn Maddock, aliada de Trump, acaba de ser eleita co-presidente do Partido Republicano de Michigan. Foto: Ruth Fremson/The New York Times
Meshawn Maddock, aliada de Trump, acaba de ser eleita co-presidente do Partido Republicano de Michigan. Foto: Ruth Fremson/The New York Times

O principal organizador do protesto armado de 30 de abril, Ryan Kelley, um funcionário republicano local, anunciou na semana passada sua candidatura para governador.

— Ficar muito alinhado com as milícias. Isso é uma coisa ruim? — questionou Kelley durante uma entrevista.

Londa Gatt, uma ativista pró-Trump próxima a ele, foi nomeada no mês passado para um cargo de liderança em um grupo estadual de mulheres republicanas. Ela recebeu membros do Proud Boys e de outras milícias em protestos, postando no site de mídia social Parler: “Enquanto BLM (Black Lives Matters) destrói / mata pessoas, os Proud Boys são verdadeiros patriotas”. Os promotores acusaram os membros dos Proud Boys de desempenhar um papel importante no ataque de 6 de janeiro.

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‘Exército Particular’

Duas semanas após o ato na Assembleia, Shirkey, o líder republicano, apareceu no palco de um comício com um membro da milícia que mais tarde seria acusado de conspirar para sequestrar a governadora democrata Gretchen Whitmer.

— Precisamos de você agora mais do que nunca — disse Shirkey aos milicianos.

Após a invasão em Washington, alguns argumentam que tais endossos põem em risco o futuro do partido.

— É como se o Partido Republicano tivesse seu próprio exército doméstico — destaca Jeff Timmer, ex-diretor executivo do partido em Michigan e crítico de Trump.

Timothy McVeigh e Terry Nichols, que mataram 168 pessoas no atentado de Oklahoma City em 1995, teriam se associado a membros de milícias de Michigan, embora Norman Olson, fundador da Milícia de Michigan, tenha dito que eles foram rejeitados por causa de sua retórica violenta.

Depois desse atentado, as milícias foram em grande parte exiladas para as margens da política, preparando-se para ameaças imaginárias da Nova Ordem Mundial.

Nos últimos anos, à medida que o Partido Republicano se deslocou ainda mais para a direita, esses grupos gradualmente encontraram um lar na sigla, disse JoEllen Vinyard, professora emérita de História na Universidade do Leste de Michigan, que estudou extremismo político. Muito dessa aproximação está centrada na defesa da posse de armas, disse ela.

— Acho que há certa simpatia no Partido Republicano por essas pessoas, que não existia no passado. É uma relação muito mais próxima agora.

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Se os republicanos de Michigan e grupos milicianos passaram a compartilhar o mesmo espaço ideológico, a associação se tornou prática em 2020, à medida que uma série crescente de eventos os unia para protestos e comícios. Eles começaram com objeções às medidas de isolamento para conter a disseminação do coronavírus, defendidas pela governadora.

Tensões

No primeiro grande protesto no país contra as medidas de isolamento, milhares de carros, caminhões e até mesmo algumas betoneiras lotaram as ruas ao redor da Assembleia em Lansing, no que Meshawn Maddock chamou de Operação Gridlock.

Cerca de 150 manifestantes deixaram seus veículos para gritar “prendem-na” no gramado da Assembleia  — usando o mesmo grito de guerra usado em 2016 contra Hillary Clinton contra a governadora Whitmer. Algumas bandeiras dos estados confederados eram agitadas. Cerca de uma dúzia de membros fortemente armados da Milícia Liberdade de Michigan também compareceram.

Quando grupos armados locais em Michigan começaram a discutir mais manifestações, a maioria dos republicanos as evitou no início.

— Eles estavam com medo da palavra “milícia”— lembrou Phil Robinson, um membro da Milícia Liberty.

Mas seu grupo encontrou apoiadores entusiasmados em Ryan Kelley, um corretor de imóveis e comissário de planejamento republicano de um subúrbio de Grand Rapids, e Jason Howland. Eles chamaram as orientações para ficar em casa de “inconstitucionais” e formaram o Conselho Patriota Americano “para restaurar e manter um governo constitucional”, disse Kelley em uma entrevista.

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Os críticos argumentaram que a raça era um fator não declarado na batalha contra a ordem de ficar em casa. Os republicanos que se manifestaram contra as regras eram em sua maioria brancos residentes de áreas rurais e subúrbios. Mas mais de 40% das mortes em Michigan ocorreram entre afro-americanos e estavam concentradas em Detroit, que representava menos de 15% da população do estado. Essas tensões se espalharam no verão passado, quando as mortes de afro-americanos pela polícia geraram protestos pelo país.

Ryan Kelley, o principal organizador do protesto armado de 30 de abril, agora concorre para governador. Foto: Elaine Cromie/ The New York Times
Ryan Kelley, o principal organizador do protesto armado de 30 de abril, agora concorre para governador. Foto: Elaine Cromie/ The New York Times

Os atos do Black Lives Matter em Michigan raramente foram violentos ou destrutivos, e o maior ocorreu em Detroit. Mas os republicanos no resto do estado reagiram alarmados aos flashes de violência em todo o país, e Trump reforçou seus temores com suas advertências sobre o movimento antifascista “antifa”.Os apelos aproximaram ainda mais o partido e seus aliados militantes.

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No auge dos protestos contra a violência policial, o Conselho Patriota Americano dirigiu seus ataques mais violentos contra Whitmer e suas medidas de restrição. Ele divulgou cartas públicas instando as autoridades federais a prendê-la por violar a Constituição. “Whitmer precisa ir para a prisão”, declarou Kelley em um vídeo que ele postou no Facebook no início de outubro, que mais tarde foi removido. “Ela é uma ameaça à nossa República.”

Poucos dias depois, agentes federais prenderam mais de uma dúzia de milicianos de Michigan, acusando-os de uma conspiração para sequestrar a governadora, colocá-la em julgamento e possivelmente executá-la.

Mesmo com meses de mobilização de grupos armados, acompanhados por uma linguagem cada vez mais ameaçadora, Trump se recusou a condenar os conspiradores.

— As pessoas têm o direito de dizer: talvez tenha sido um problema, talvez não — declarou ele durante um comício em Michigan.

Derrota eleitoral

Depois da eleição de 3 de novembro, como a contagem mostrou que Trump havia perdido no estado, os republicanos de Michigan começaram uma campanha de dois meses para derrubar o resultado e mantê-lo no poder, canalizando o ímpeto das batalhas do ano anterior contra o Black Lives Matter e as medidas de isolamento.

Quando as tentativas de interromper a contagem falharam, Meshawn Maddock, em 14 de dezembro, levou 16 eleitores republicanos a tentar entrar na Assembleia de Michigan para impedir que os delegados democratas depositassem seus votos no Colégio Eleitoral. Durante uma entrevista coletiva, denominada de  “Pare o Roubo” em Washington no dia seguinte, ela jurou “continuar lutando”.

Marchando em direção ao Capitólio em 6 de janeiro, Maddock tuitou que a massa era “a multidão e o mar de pessoas mais incriveis com quem já andei”. Ela também usou o Twitter para atacar um observador que instava o senador Mitch McConnell, o líder republicano, a assumir o controle de seu partido. “É aí que você está muito errado. É a festa de Trump agora”, disse ela. No entanto, Maddock condenou a violência do ato e afirmou não ter participado.

 — Quando se trata de milícias ou dos Proud Boys, não tenho nenhuma conexão com eles — escreveu ela por e-mail.

Kelley e Howland foram filmados fora do Capitólio dos EUA durante a invasão. Os dois homens disseram que não infringiram nenhuma lei e argumentaram que o evento não foi “uma insurreição” porque os participantes eram patriotas.

— Eu estava lá para apoiar o presidente — disse Kelley.

Shirkey, o líder do Senado de Michigan que veio a trabalhar com as milícias, se negou a seguir o movimento de Trump até o fim. Convocado à Casa Branca em novembro, ele recusou os pedidos do presidente para tentar anular sua derrota em Michigan.

Mas, em uma entrevista na semana passada, o parlamentar disse que ainda assim simpatizava com a multidão que atacou o Congresso.

— Eram pessoas se sentindo oprimidas e deprimidas, respondendo ao que pensavam ser o governo apenas roubando suas vidas. Não estou endossando e apoiando suas ações, mas entendo de onde elas vêm.

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