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Thursday, October 28, 2021

Como o estresse advindo dos exercícios físicos pode ser benéfico para o organismo

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Para algumas pessoas, diz psicólogo, envolver os sentimentos agressivos de alguém em um esporte pode ajudá-los a controlar seus sentimentos

Erik Vance, do New York Times

27/09/2021 – 08:23

Cientistas descobriram que o medo e o estresse das manobras em esportes radicais, como o Parkour, treinam o cérebro para lidar com essas emoções na vida. Foto: Thiago Freitas / Agência O Globo
Cientistas descobriram que o medo e o estresse das manobras em esportes radicais, como o Parkour, treinam o cérebro para lidar com essas emoções na vida. Foto: Thiago Freitas / Agência O Globo

Nos tempos de escola, eu não era exatamente atlético. Era reserva do time de beisebol universitário júnior e larguei o basquete no primeiro ano depois de duas semanas.

Mesmo assim, eu ainda queria encontrar um esporte que fosse feito para mim, então comecei a praticar escalada. Eu também não era bom nisso, mas adorei a sensação que aquilo me dava. A escalada parecia me centrar. Na sexta, eu terminava a semana me sentindo um saco de hormônios e angústia. No domingo, ficava pendurado a 24 metros do chão, morrendo de medo, e na segunda-feira o as tarefas escolares pareciam mais fáceis. Como algo tão assustador fazia o mundo parecer menos caótico e estressante?

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Não há dúvida de que o exercício é bom para o coração e para a saúde mental. Ou que atividades calmantes como ioga ou tai chi podem ajudá-lo a se sentir revigorado e recarregado. Mas e as atividades menos calmas? Tipo o parkour, pulando de um telhado para o outro, ou arremessar uma bola de tênis com força pela quadra… Será que são boas para a mente?

Os psicólogos tradicionais podem dizer não, porque qualquer coisa que aumente os hormônios do estresse, seja por meio do medo ou da agressão, não é bom para a saúde mental. Alguns estudos reforçam essa crença: um sugeriu que a “natureza competitiva” do raquetebol é menos relaxante do que o treinamento com pesos ou em circuito, enquanto outro descobriu que adicionar estresse a um treino de ciclismo prejudica a função imunológica. E certamente este ano olímpico nos mostrou os perigos de estressar demais os atletas de elite dentro e fora do campo.

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Mas isso não significa que emoções como estresse ou agressão não tenham lugar no exercício. Quase qualquer atleta apaixonado dirá que seu esporte é tanto um escape para a saúde mental quanto uma preparação física. Você precisa que limpar sua cabeça, colocar o cérebro pra funcionar e desopilar. Para alguns de nós, essas emoções aparentemente negativas durante o exercício são até a principal razão para treinar.

Sentir medo é uma boa habilidade para a vida

Pode parecer estranho que a melhor maneira de lidar com o estresse seja basicamente inundar meu cérebro com ele, mas se eu não tivesse feito esportes como a escalada ou andar de caiaque rio abaixo, não acho que teria sobrevivido a esses últimos 17 meses.

Esportes com adrenalina também são populares entre os veteranos de guerra que lidam com o transtorno de estresse pós-traumático. Cientistas alemães chegaram a fazer experiências com escalada como forma de terapia para a depressão. Os resultados foram moderadamente bons, mas apenas o fato de os cientistas escolherem a escalada sugere algum benefício emocional para o medo. Por mais estranho que possa parecer, o medo pode ser profundamente terapêutico.

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Omer Mei Dan, cirurgião ortopédico, pesquisador e ex-saltador profissional de base jump, e Erik Monasterio, psicólogo da Universidade de Otago na Nova Zelândia e montanhista experiente, tentaram por anos entender qual o papel desempenhado pela personalidade de atletas de elite de esportes extremos ao escolherem arriscar suas vidas e depois processar essas experiências. Eles descobriram que as pessoas que escalam ou pulam de pedras profissionalmente têm uma pontuação alta na necessidade de buscar coisas novas e uma preocupação “patologicamente” baixa em se machucar.

Monasterio e Mei Dan chegaram a sugerir que esses traços de personalidade conferem alguma forma de resistência ao trauma psicológico.

Para alguns, eles disseram, pode ser que sentir medo e estresse ao voar de um halfpipe com seu skate ou pular de um avião treine seu cérebro para lidar com essas emoções em outras partes da sua vida.

Libere a tensão

Os psicólogos uma vez descreveram a psiquê humana como um cano ou uma mangueira que volta e meia se enche de emoção, obrigando as pessoas a liberarem a pressão para se manterem saudáveis. A “teoria da catarse”, como era conhecida, dizia que se você está com raiva, deve sair e martelar alguns pregos.

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Essa noção não se sustentou bem, em parte porque os pesquisadores descobriram que, quando pessoas zangadas vão espairecer martelando martelando pregos, elas costumam voltar com a mesma raiva (ou piores) do que antes. E, no entanto, a catarse é real: quando você chora bem em um filme triste ou mesmo uma noite comendo os tacos mais picantes que você pode aguentar. O choro, em especial, pode nos ajudar a processar emoções e liberar a ansiedade, disse Lauren M. Bylsma, especialista em emoções da Universidade de Pittsburgh. E é por isso que os atletas podem se sentir bem após um jogo competitivo ou uma corrida de esqui assustadora.

“Quando você tem um alto nível de emoção e então tem aquela liberação, pode ter aquela experiência catártica e você meio que sente aquela liberação de tensão”, disse ela. “Eu pude ver isso sendo aplicado não apenas ao choro ou tristeza, mas também ao medo.”

Às vezes, uma agressão não faz mal

Então como as emoções negativas podem nos ajudar ocasionalmente a limpar nossas mentes?

— Você não pode separar nitidamente as emoções em positivas ou negativas. A raiva, para algumas pessoas, é descrita como algo negativo. Mas outras pessoas a descrevem como um sentimento positivo — explica Abigail Marsh, professora de psicologia na Universidade de Georgetown e autora de “The Fear Factor“ (‘O fator medo’).

Isso fica nítido nos esportes competitivos destinados aos jovens, que Marsh chama de uma “forma de agressão formal e culturalmente aceitável”.

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Muitos estudos ao longo dos anos descobriram que jovens, muitas vezes homens, que participam de esportes agressivos tendem a aprovar a violência e até recorrem a ela com mais frequência do que os praticantes de outros esportes ou não atletas. Mas Mitch Abrams,psicólogo esportivo e especialista em controle da raiva no atletismo, disse que essa noção é muito generalizada.

Para algumas pessoas, disse ele, envolver os sentimentos agressivos de alguém em um esporte pode ajudá-los a controlar seus sentimentos. Ele ocasionalmente prescreve atividades agressivas, como artes marciais, como forma de enfrentar um trauma. Mas ele também tem o cuidado de não prescrevê-la para pessoas com problemas em controlar a raiva, dizendo que há um nível de maturidade necessário para controlar a agressão.

— Há um risco—, disse ele. —Se você se sentir melhor depois de golpear algo, é mais provável que acerte algo novamente no futuro.

Descansando e digerindo

O fio mais importante que liga emoções intensas ao exercício pode ser menos a psicologia e mais biologia. Tanto o medo quanto a agressão acionam o sistema nervoso simpático, a chamada resposta de luta ou fuga.

Ao fazer isso, eles podem desencadear o sistema nervoso parassimpático, que é vagamente chamado de “descanso e digestão”. As respostas simpáticas são definidas por cortisol alto, pressão alta e frequência cardíaca, suor e pupilas dilatadas. Por outro lado, as reações parassimpáticas desencadeiam baixa pressão arterial e frequência cardíaca, aumento do metabolismo e, mais importante, uma descarga de cortisol no sistema.

É a calma profunda, quase espiritual, que vem depois da tempestade.

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