10.6 C
Peru
Saturday, May 8, 2021

Com imagens do ataque ao Capitólio e Livro Vermelho de Mao, Senado aprova início do julgamento de Trump

Must read

Acusação democrata usou relatos da invasão e tentou mostrar como o ex-presidente agiu de forma decisiva para incentivá-la; advogados de defesa questionaram legalidade do impeachment e compararam democratas ao PC chinês

O Globo e agências internacionais

09/02/2021 – 19:14
/ Atualizado em 09/02/2021 – 19:33

Deputado democrata Jamie Raskin faz seus primeiros argumentos de acusação no julgamento do impeachment de Donald Trump no Senado dos EUA Foto: Bloomberg
Deputado democrata Jamie Raskin faz seus primeiros argumentos de acusação no julgamento do impeachment de Donald Trump no Senado dos EUA Foto: Bloomberg

WASHINGTON — Na abertura do primeiro dia do julgamento do impeachment de Donald Trump, o Senado aprovou a constitucionalidade do processo, reforçando uma votação realizada na semana passada, e evidenciou a profunda divisão na Casa sobre o futuro do ex-presidente. No mês passado, a Câmara aceitou a denúncia de “incitação à insurreição”, relacionada à invasão do Capitólio no dia 6 de janeiro. Desta vez, 56 senadores votaram pelo andamento do processo, contra 44 votos contra. Ao todo, seis republicanos votaram com a acusação.

No início da sessão, ao anunciar um acordo sobre as regras do julgamento, o líder da maioria democrata, Chuck Schumer, não poupou palavras para definir a gravidade do momento e das acusações apresentadas.

— É o nosso dever constitucional solene conduzir um julgamento honesto e justo sobre as acusações apresentadas contra o ex-presidente Donald Trump, as mais graves já apresentadas contra um presidente dos EUA na história do país — declarou Schumer. Apesar de ser uma medida bipartidária, acertada com a liderança da minoria, 11 senadores republicanos votaram contra.

A nova vida de Trump:Rixas com atores, um julgamento no horizonte e dinheiro, muito dinheiro

Em seguida, acusação e defesa realizaram um debate de quatro horas de duração, onde delimitaram suas estratégias. A primeira fala coube à acusação, liderada pelo deputado Jamie Raskin. Ele declarou que os republicanos que questionam o impeachment estariam dando uma espécie de “salvo conduto” para que líderes cometam crimes em seus últimos dias no cargo e saiam livres.

Raskin apresentou um vídeo com imagens do ataque ao Capitólio, intercalado por trechos do discurso de Donald Trump naquele mesmo 6 de janeiro, sugerindo que o presidente incitou seus apoiadores a invadir o prédio e suspender a sessão que confirmaria a vitória de Biden. O vídeo não poupou detalhes, mostrando rostos dos invasores e o momento em que Ashli Babbitt, veterana da Força Aérea que tentava entrar no plenário da Câmara, foi baleada e morreu. Além disso, as declarações posteriores de Trump foram mostradas como uma prova de que, segundo a acusação, ele minimizou os eventos daquela tarde.

— O impeachment não é apenas para remover alguém do cargo, ele também é para proteger nossa democracia — declarou o deputado David Cicilline, terceiro da equipe de acusação a falar no debate. Enquanto apresentava seus argumentos, imagens do dia da invasão eram mostradas aos senadores (e ao público que assistia pela TV).

Jamie Raskin chora ao se lembrar da experiência que passou com sua família durante o ataque ao Capitólio no dia 6 de janeiro Foto: U.S. Senate TV via Reuters / U.S. Senate TV via REUTERS
Jamie Raskin chora ao se lembrar da experiência que passou com sua família durante o ataque ao Capitólio no dia 6 de janeiro Foto: U.S. Senate TV via Reuters / U.S. Senate TV via REUTERS

Ao mesmo tempo, usou as publicações de Trump no Twitter como provas de que ele incitou seus apoiadores contra o Legislativo mesmo antes do discurso do dia 6 de janeiro, ao questionar a lisura da eleição e, posteriormente, sua derrota nas urnas para Joe Biden. Ao final dessa primeira exposição, Raskin se emocionou ao falar dos impactos desse processo para a vida política do país e na própria família: a filha dele o acompanhava no dia do ataque, e hoje afirma que não quer mais voltar ao prédio.

— Isso não pode ser o futuro dos EUA — declarou Raskin, afirmando ainda que não era possível abrir uma brecha para que líderes cometessem crimes em seus últimos momentos no cargo, algo chamado por ele de “exceção de janeiro”.

‘Divisão nacional’

Após uma breve pausa, Bruce Castor, advogado de Trump, partiu do princípio que Trump, em sua visão, condenou os atos de violência contra o Capitólio, e ordenou que as forças de segurança agissem no dia do ataque e, posteriormente, para punir os que violaram a sede do Legislativo. Em boa parte de sua apresentação deixou o caso de lado e preferiu falar diretamente aos senadores sobre o que considerava o “compromisso” com seus eleitores.

Foco em Giuliani: Empresa processa advogado de Trump em US$ 1,3 bilhão por alegações falsas de fraude

Contudo, chamou a atenção a ausência de menções diretas às acusações, ou mesmo do nome do ex-presidente Trump, apenas citado em poucos momentos da fala, como quando Castor afirmou que o impeachment era motivado pelo “medo” dos democratas de enfrentá-lo em futuras eleições — segundo Maggie Haberman, do New York Times, se tratou de uma estratégia para “controlar as emoções” no plenário depois da exposição dos democratas.

De fato, a estratégia concreta de defesa viria com o outro advogado, David Schoen, e ela foi além na ideia de que o impeachment, além de ser ilegal em sua visão, abriria caminho para que processos semelhantes fossem abertos no futuro.

— Eles querem sacrificar nosso caráter nacional para seguir adiante com seu ódio e seu medo de que eles não estejam mais no poder — afirmou Schoen, se referindo ao Partido Democrata.

Também usando vídeos, o advogado mostrou uma série de declarações de lideranças democratas pedindo o impeachment de Trump desde os primeiros dias de seu mandato. Para ele, seria mais uma prova de que o processo é uma perseguição política, sem base em crimes cometidos, e levar adiante o processo vai dividir ainda mais o país.

— [O julgamento] vai rasgar o país ao meio, deixando milhões de americanos se sentindo afastados da agenda política nacional — declarou o advogado. — No final, isso não terá sido sobre Trump ou outra pessoa. É sobre nossa Constituição e sobre o abuso do poder do impeachment para ganhos políticos.

Schoen ainda criticou o que considera ter sido “pressa” na condução do julgamento, negando, em sua visão, o devido direito à defesa para Trump — o ex-presidente chegou a ser convidado para depor no Senado, mas rejeitou a ideia. Em um dos momentos mais curiosos da argumentação, comparou a iniciativa democrata a julgamentos arbitrários na China — para ilustrar, levou uma cópia de bolso de “O Livro Vermelho”, de Mao Tsé-tung.

Ao final das exposições, os senadores votaram pela continuidade ou não do processo: como esperado, o julgamento foi considerado constitucional e, portanto, terá prosseguimento. Foram 56 votos a favor e 44 contra — ao todo, seis republicanos foram favoráveis. Há duas semanas, uma votação semelhante, liderada por Rand Paul, teve o apoio de cinco republicanos.

Nesta quarta-feira, acusação e defesa começam a fazer suas argumentações no caso. Cada lado terá 16 horas para tal, divididas ao longo de vários dias. Ao final delas caberá ao Senado decidir se Trump é ou não culpado, sendo necessários 67 votos — um número que, até o momento, parece bem difícil de ser obtido.

More articles

- Advertisement -

Latest article