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Friday, November 26, 2021

Coluna | Sergio Moro morreu antes da Lava Jato

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Jerônimo Teixeira Foto: O Globo

O juiz-herói desmoralizou-se já no momento em que aceitou ser ministro de Jair Bolsonaro

Ex- ministro da Justiça Sergio Moro Foto: Agência O Globo/Pablo Jacob
Ex- ministro da Justiça Sergio Moro Foto: Agência O Globo/Pablo Jacob

Em julho de 2019, uma multidão cantou Como é grande o meu amor por você na avenida Paulista. O mestre de cerimônias do evento, Tomé Abduch, do grupo Nas Ruas, dedicou a música de Roberto Carlos ao então ministro da Justiça e Segurança Pública: “Sergio Moro, essa homenagem é do povo brasileiro a você e a sua família. Obrigado pelo senhor existir e por tudo que tem feito por nós”.

Essa declaração de amor tão sincera e tão brega foi um dos mais constrangedores exemplos de uma variedade de manifestação política consagrada em anos petistas e continuada sob o reinado de Jair Bolsonaro: o protesto a favor. O ato público em São Paulo veio em defesa de Moro no momento em que sua imparcialidade como juiz da Lava Jato estava sendo questionada, com a divulgação, pelo The Intercept Brasil, de mensagens que ele trocara com os procuradores da força-tarefa.

Nem mesmo o céu, nem as estrelas, nem mesmo o mar e o infinito – nada era maior do que o amor da multidão canora pelo então superministro. Naquele momento, esse amor transbordava também para o presidente que havia convidado Moro a deixar de vez a magistratura pela política. Bolsonarismo e lava-jatismo eram monstrinhos siameses. A operação para separá-los, menos de um ano depois, foi traumática. Moro saiu acusando o antigo chefe de interferência indevida na Polícia Federal, para salvar o enrolado filho Zero Um.

Moro saiu-se bem, no fim das contas. Virou sócio-diretor da Alvarez & Marsal, consultoria que por acaso atende empreiteiras devassadas pela Lava Jato.

E a Lava Jato afinal chega ao fim, justo no momento em que Bolsonaro e Centrão se juntam em um abraço hétero.

Em uma pesquisa recente da XP/Ipespe, Moro é o único dentre cinco possíveis candidatos à presidência em 2022 que vence Bolsonaro em um segundo turno. Teria 36% dos votos, contra 33% de seu antigo chefe. A eleição ainda está longe e nem se sabe se Moro cometerá a temeridade de se candidatar, mas a pesquisa revela que uma parte considerável dos brasileiros segue confiando no ex-juiz. Em seu cargo suntuoso na iniciativa privada, ele ainda voa sobre a imaginação das viúvas da Lava Jato vestindo a capa de super-herói com que o representavam em manifestações de rua. O núcleo mais devoto do bolsonarismo, porém, já o demoniza.

Como antes o demonizavam os petistas. Os ataques que a Lava Jato sofreu da esquerda foram cínicos. A pergunta “e o Aécio?”, bordão favorito dos petistas, comportava uma malandra ambiguidade: era difícil decidir se petistas e simpatizantes queriam ver tucanos na cadeia ou se queriam apenas a impunidade dos seus corruptos de estimação. (Talvez não fosse ambiguidade, mas ambivalência, se é que me entendem.)

A cegueira cínica, nos últimos anos, ganhou um novo clichê: Lula foi preso “sem provas”. É bem provável que seja isso mesmo, que a condenação se assente sobre fundamentos fracos. Não me arrisco a avaliar matéria jurídica. Só não me parece muito republicano, para usar o adjetivo da moda, que uma empreiteira envolvida em negócios escusos com o governo tenha se prontificado tão gentilmente a dar um trato no apartamento de Guarujá no qual o ex-presidente viveria seus dias de descanso entre palestras corporativas (e que Lula tenha recuado do negócio do triplex não melhora muito a moralidade do negócio). É talvez significativo que o bordão seja “Lula condenado sem provas”, e não “Lula inocente”. Ainda no tempo do já quase esquecido mensalão, José Dirceu foi quem melhor definiu a linha básica de defesa dos petistas implicados em escândalos: “Estou cada vez mais convencido da minha inocência”.

A Lava Jato lançou luz sobre o modo com que se negocia o bem público no Brasil. Isso não foi pouca coisa. Hoje sabemos que uma empreiteira chegou à sofisticação de criar um nome-fantasia para seu escritório de propinas: departamento de negócios estruturados! Para revelar esses meandros caprichosos da corrupção brasileira, no entanto, o tomaram-se vários atalhos tortuosos, que podem ter contornado o devido processo legal e as garantias constitucionais dos réus.

O ímpeto moralizante da Lava Jato, conduzida por gente possuída pelo fogo sagrado da Justiça – penso sobretudo em Deltan Dallagnol, a Lumena do Ministério Público –, comprometeu sua objetividade. O que deveria ser apenas uma operação policial degenerou em um movimento político, que, ao contrário do diziam os críticos esquerdistas, não era tucano. O lava-batismo já carregava o missionarismo antipolítico que elegeu Bolsonaro lá no tempo em que Sergio Moro deu uma gelada no “mito” quando os dois se encontraram por acaso no aeroporto de Brasília.

A desmoralização completa da Lava Jato antecede a divulgação das mensagens roubadas do celular de seus protagonistas: ela se deu no dia em Sergio Moro aceitou o convite para ser ministro de Bolsonaro. Moro fez que não viu as ligações da família presidencial com milicianos, e perdoou deslizes de um colega de ministério porque este teria se arrependido, e passou a mão na cabeça de policiais amotinados no Ceará. Deixou o ministério por uma questão que lhe é cara, a independência da Polícia Federal. Na comparação com outros enroscos do governo, porém, a razão de sua saída parece miúda e corporativa.

Já vi a Lava Jato com olhos mais generosos e ingênuos. Mas sempre fui reticente com a admiração personalista que tantos devotavam ao juiz de Curitiba. Em 2016, fiz, em uma rede social, um único elogio pessoal a Moro. Depois de vê-lo falar em um evento público, disse que ele me pareceu “um sujeito pedestre e “aborrecidíssimo”. Sem qualquer ironia, eu argumentava então que essas eram boas qualidades para um juiz. Pena que a figura chã e chata tenha acreditado nos admiradores que o viam no figurino do Super-Homem.

Melhor nunca confiar em quem te faz declarações apaixonadas cantando Roberto Carlos.

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