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Monday, May 17, 2021

Coluna | Para recomeçar

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Edu Carvalho Foto: O Globo

No país onde as aglomerações são permitidas, o lugar que deveria estar aberto acumula poeira

Sala de aula vazia enquanto aglomerações ocorrem em bares, praias e jogos de futebol Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo
Sala de aula vazia enquanto aglomerações ocorrem em bares, praias e jogos de futebol Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo

Não faz muito tempo que estávamos, eu e Luísa, sobrinha-filha que crio, aprendendo a mexer no aplicativo baixado no tablet. Dentro das possibilidades, era a reprodução da sala de aula agora em casa, estendida por todos os cômodos, sem pausa ou respiro.

Demorou para engrenar. Se para a pequena foi um desafio o início da vida escolar por meio de uma tela, sem a presença real dos professores e amigos, aprendendo e brincando, para este que vos escreve foi uma via crucis sem fim. A primeira preocupação, claro, era levar em consideração o aprendizado. Como filhote de escola pública, daqueles que adoravam sentir o cheiro do giz no quadro e tendo a rotina toda presencial, tinha inúmeras dúvidas sobre o ensino remoto. Mas paguei com a língua: ainda que muito difícil, o planejamento estabelecido foi cumprido e creio que temos alguns saldo positivos, mas não é tudo. Carências são evidenciadas ao longo da trajetória, e os impactos serão percebidos no futuro.

Em segundo ponto e não menos importante, sob minha responsabilidade, ficava a divisão de tempo e espaço para que conseguisse, trabalhando, ajudar nas questões.

Quando pintava um “Tio, vem aqui por favor” no display do celular, a perna tremia. Lá ia eu, do quarto até a mesa, solucionar seja qual fosse o problema. Explicar uma, duas, três, quatro, às vezes 50 vezes, os motivos que faziam a questão A ser de tal resposta, e não a B, como ela acreditava. Ter de usar de toda a criatividade para falar sobre o Brasil, o mundo, passeando também por suas interrogações sobre a cor do céu, o nascimento dos planetas e as fases da lua, entre um relatório, uma reunião importante, etc. “Haja coração!”, eu imaginava o Galvão Bueno dizer na minha cabeça, ou mesmo o Faustão com o seu “Quem sabe faz ao vivo”. Sobrevivi.

Reconhecemos, tanto eu quanto ela, o quão precioso foi esse momento para nós, e que recomeça a partir de segunda, com o retorno não presencial, dando sequência ao iniciado em 2020. Alinhamos estratégias para que seja o menos complicado, apesar de todas as adversidades já impostas, e que parecem não ter fim. Tenho a consciência de que tudo só pode e é feito por sua bolsa em uma entidade privada.

A situação é diferente para seus irmãos. Morando com minha irmã, Douglas e Ricardo estão na escola pública. Em sua passagem de férias com eles, ouviu sobre a dificuldade em levar os estudos, apesar dos esforços de todos na família. Não esmoreceram, mas sentiram muito mais que a caçula o peso de um ano letivo catastrófico para estudantes, professores e responsáveis.

No mesmo núcleo familiar, vejo escancarado o cenário trazido pelo estudo “Desigualdade educacional durante a pandemia”, apresentado ao Conselho Nacional de Educação pelos pesquisadores do Insper Naercio Menezes Filho, Bruno Kawaoka Komatsu e Vitor Cavalcante, que investigaram a relação entre o fechamento das escolas e os diferentes impactos educacionais entre os estudantes brasileiros.

Dentre as principais conclusões, a pesquisa constatou que alunos de instituições privadas estão mais preparados para acessar materiais educativos durante o período de distanciamento social, já que as escolas particulares se adaptaram melhor ao ensino à distância em comparação com as gestões públicas, conseguindo oferecer atividades escolares para a maioria dos alunos dessas instituições. De acordo com os pesquisadores, a desigualdade educacional entre alunos irá aumentar para todos os níveis de ensino (fundamental, médio e superior) em decorrência da crise de saúde.

Também pode-se aferir que a mobilidade social intergeracional (melhoria de condições socioeconômicas entre uma geração e outra) será dificultada com o fechamento das escolas; que a desigualdade educacional entre as diferentes regiões do país devem aumentar, já que alguns estados tiveram limitações muito mais acentuadas na oferta do ensino remoto; e que as próprias deficiências dos sistemas de ensino públicos podem impulsionar a evasão escolar dos estudantes.

Numa conversa via Whatsapp com os três sobre as expectativas para o início do ano, os dois sobrinhos mais velhos relataram não saber quais dos colegas estarão presentes no próximo 24, quando as aulas na rede municipal carioca começam virtualmente. Mesmo com incertezas, todos os dois tiveram a mesma fala da irmã mais nova: de que sentem falta da escola, e do quanto entendem o valor da educação em suas vidas. Ainda que com faixas etárias opostas (16, 12 e 9), sabem mais do que aqueles que tentam tutelar o pilar da mobilidade social no país, sobretudo por serem os atores em situação.

Em um país onde as aglomerações são permitidas, bares e praias são liberados e jogos de futebol acontecem com presença de políticos, o lugar que deveria estar aberto acumula poeira. Para saber se precisam recomeçar, basta ouvir a quem de direito: as crianças e jovens.

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