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Thursday, September 23, 2021

Colaborar ou punir desmatadores? Grupos de pressão disputam influência na política de Biden para a Amazônia

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Em Washington, há que defenda colaboração com o Brasil e outros que temem recompensar Bolsonaro

Paola de Orte, especial para O GLOBO

07/02/2021 – 03:30

Queimada na floresta em Novo Progresso, no Pará: grupos de pressão vêm apresentando propostas diferentes sobre como lidar com Brasil no tema ambiental Foto: Carl de Souza / AFP/15-8-2020
Queimada na floresta em Novo Progresso, no Pará: grupos de pressão vêm apresentando propostas diferentes sobre como lidar com Brasil no tema ambiental Foto: Carl de Souza / AFP/15-8-2020

WASHINGTON — O governo dos Estados Unidos mudou e, com ele, sua lista de prioridades. Sob Joe Biden, mudanças climáticas passam a ocupar espaço central na política interna e internacional. Dono de 60% da Amazônia, o Brasil e sua relação com os EUA foram empurrados para o centro do debate. Em Washington, grupos correm para apresentar ideias para proteger a floresta. Alguns propõem cooperação, mas outros se opõem, pois acreditam que cooperar seria uma maneira de recompensar um presidente que já errou muito em sua política ambiental.

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A favor da abordagem cooperativa estão os Dirigentes do Clima. O grupo reúne ex-funcionários do governo americano e negociadores climáticos que entregaram a agências de Biden o “Plano de proteção da Amazônia”, centrado em financiamento, comércio, cadeias logísticas e diplomacia.

O plano é baseado na proposta de Biden de criar um fundo de U$ 20 bilhões para combater o desmatamento na região. O primeiro objetivo do grupo, que já se reuniu com o ex-embaixador americano no Brasil, Thomas Shannon, é convencer o governo dos EUA de que Amazônia é prioridade.

Integrante sênior do Departamento de Estado durante o governo Bill Clinton, Frank Loy diz que o plano leva em conta as dificuldades para controlar a atuação dos donos de terra em um território grande como o brasileiro.

— Entendo a sensibilidade da parte de qualquer governo quando outros governos e pessoas falam sobre seu território, mas, neste caso, não vejo razão real para uma diferença significativa de pontos de vista entre o Brasil, outros países amazônicos e o resto do mundo. O Brasil tem um longo histórico de envolvimento em temas de mudanças climáticas, desde a Eco-92.

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A estratégia cooperativa reflete o ímpeto moderado da ala do Partido Democrata da qual Joe Biden faz parte. Também reflete o espírito negociador de Biden a tentativa de alcançar apoio bipartidário.

Respeito à soberania

Entre os “dirigentes do clima” está a republicana Christine Whitman, ex-governadora de Nova Jersey e chefe da Agência de Proteção Ambiental (EPA) no governo George W. Bush. Ela argumenta que, ao contrário da visão dos republicanos pós- Trump, seu partido foi pioneiro no tema, citando Teddy Roosevelt com a expansão dos parques nacionais e Richard Nixon com a criação da EPA.

— A ideia é trabalhar proativamente e colaborativamente com países em cujos territórios a floresta tropical está para encontrar maneiras de apoiar aqueles que tiram seu sustento de queimar ou cortar a floresta, dando a eles uma alternativa — diz, afirmando que respeitar a soberania é fundamental. — Se Bolsonaro não estiver confortável em trabalhar com grupos como o nosso, talvez, se trabalharmos com outros, ele possa ficar mais confortável.

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Apesar da retórica agressiva do presidente Jair Bolsonaro contra as declarações de Biden sobre a Amazônia — o brasileiro chegou a dizer que “quando acabar a saliva, tem que ter pólvora” — o governo brasileiro mostra disposição para conversar.

— O Brasil está aberto a iniciar um diálogo de cooperação sobre os mais variados aspectos das questões relacionadas ao desenvolvimento sustentável e à mudança do clima — diz o embaixador do Brasil em Washington, Nestor Forster. — A forma concreta que vão tomar esses arranjos, o tipo de cooperação ou aporte que os EUA podem trazer, que o Brasil pode trazer pra mesa, dependerão de como será essa agenda concreta. Mas a disposição de conversar está posta.

Forster afirma que a embaixada tem se reunido com entidades ambientais, como acadêmicos, organizações não governamentais e o setor privado, “procurando ouvir as sugestões para enriquecer a agenda do diálogo bilateral”.

— Para um governo que tem preocupação com justiça social, nós também temos dito que temos preocupação em enfrentar este desafio enorme, que é o paradoxo amazônico: a região mais rica do Brasil em recursos naturais e a mais pobre no índice de desenvolvimento humano — diz ele.

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Consumidor cobra

A Amazônia já afeta a relação entre os setores privados. Há cobrança dos consumidores para que empresas não usem em suas cadeias de produção produtos derivados do desmatamento. A diretora-executiva do Conselho Empresarial Brasil-EUA, Cássia Carvalho, abriu um braço no órgão apenas para lidar com sustentabilidade.

— O governo Biden vai ser pragmático — diz Cássia. — O presidente tem experiência, fez viagens ao Brasil como vice-presidente, conhece o país, suas dificuldades e oportunidades. Vai achar formas de construir essa parceria. É isso que estamos recomendando sendo a voz da iniciativa privada dos EUA.

Se dependesse da esquerda, a abordagem seria menos cooperativa do que a proposta dos “dirigentes do clima”.

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— Os dirigentes tentaram desenhar uma abordagem bipartidária em Washington. Sua prioridade é uma política que funcione com os republicanos – diz Daniel Brindis, diretor de Florestas do Greenpeace, argumentando que a ala do Partido Republicano representada pela ex-governadora Whitman foi marginalizada por Donald Trump.

O Greenpeace assinou com ONGs e mais de 100 acadêmicos um dossiê pedindo que Biden interrompa negociações comerciais com o Brasil e retire o apoio à entrada do país na OCDE caso Bolsonaro não respeite compromissos ambientais e de direitos humanos. A ONG é a favor de incentivos, mas contra créditos florestais e compensação de carbono, defendidas pelos “dirigentes” e pelo Brasil, por acreditar que não são eficientes, pois apenas deslocam o desmatamento dando “permissão para poluir”.

— Não deveríamos estar jogando dinheiro no problema, porque o problema não é dinheiro, é vontade política — diz Brindis, que afirma que o posicionamento não é punitivo nem contra Bolsonaro, e sim contra posições climáticas adotadas por seu governo.

Outra alternativa aventada em Washington seria contornar o diálogo com Bolsonaro apelando para organizações multilaterais. Como o território amazônico abrange nove países, Biden poderia optar por lidar com a questão indiretamente, procurando soluções regionais, sem depender de um líder ou acusar um país.

As sinalizações têm sido de preferência pela abordagem cooperativa, como visto na proposta de campanha de Biden. Na semana passada, o deputado Albio Sires, responsável por Brasil no Congresso, disse em entrevista ao GLOBO que “é uma grande ideia trazer dinheiro para preservar a floresta”.

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Anya Prusa, do Brazil Institute do Wilson Center, lembra que a abordagem punitiva não alcançou o objetivo de frear o desmatamento quando partiu do presidente francês Emmanuel Macron.

— É importante focar no objetivo. Os EUA poderiam adotar uma postura mais punitiva, e isso poderia ser uma boa jogada com a base democrata na política interna. Mas você precisa se perguntar se isso vai trazer o impacto desejado, mudar o comportamento de fato.

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