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Monday, September 27, 2021

Cessar-fogo na guerra entre Armênia e Azerbaijão não reduziu tensão no Cáucaso

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Um acordo de cessar-fogo assinado entre Armênia e Azerbaijão em novembro pôs fim ao capítulo mais recente do conflito por Nagorno-Karabakh, após seis semanas de combates abertos que deixaram milhares de mortos e dezenas de milhares de desabrigados. Mas a fragilidade desse acordo e a falta de demarcação clara de fronteiras internacionais — um problema derivado do colapso soviético — faz com que as tensões permaneçam no Sul do Cáucaso, afirmam especialistas ouvidos pelo GLOBO.

Desde que a disputa histórica entre armênios e azeris pelo território foi novamente congelada, com mediação russa, o Azerbaijão enfrenta denúncias de violação dos direitos humanos de prisioneiros de guerra. Há pouco mais de um mês, também passaram a circular informações de que soldados azeris estariam, supostamente, invadindo pequenas aldeias no Sul da Armênia e avançando pelo território da província de Siunique, também chamada Zangezur e que antes do último acordo não fazia fronteira com o Azerbaijão.

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O Departamento de Estado dos EUA, que é membro do Grupo de Minsk, criado em 1992 para mediar o conflito pelo enclave de maioria populacional armênia em território azeri, se manifestou a respeito, pedindo que Baku libertasse os prisioneiros armênios, tratasse-os humanamente e que as fronteiras retornassem ao que eram antes de 11 de maio.

Baku, por sua vez, passou a “denunciar o comportamento irresponsável e criminoso” da Armênia por não disponibilizar os mapas das minas terrestres nas regiões que agora estão sob seu controle, após uma explosão em Kelbajar deixar quatro pessoas hospitalizadas, entre elas dois jornalistas. A mediação de mais esta contenda, porém, ficou a cargo da vizinha Geórgia, que coordenou a troca dos mapas das 97 mil minas instaladas na região de Aghdam por 15 prisioneiros armênios.

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Para Zaur Shiriyev, analista do International Crisis Group (ICG) baseado em Baku, a resolução das questões políticas entre Baku e Ierevan depende apenas dos dois países e as declarações de outros Estados, especialmente “de culturas distantes”, só aumentam “a confusão e o ódio” na região.

— Eu não falaria em invasão [da Armênia pelo Azerbaijão], por exemplo, porque as fronteiras internacionais desses países não foram claramente demarcadas após o colapso da URSS — afirma Shiriyev. — Os dois países se baseiam em mapas de fronteira soviéticos, mas são mapas soviéticos diferentes, o que mostra que não há fronteiras claras na região.

Fronteiras em contestação Foto: Editoria de Arte
Fronteiras em contestação Foto: Editoria de Arte

Heitor Loureiro, pesquisador associado do Grupo de Pesquisa e Estudos sobre o Oriente Médio (GEPOM), vê a questão sob outra ótica. Para ele, o Azerbaijão se aproveita de um momento de fraqueza da Armênia para forçar uma demarcação de fronteira que deslegitimaria o controle armênio sobre o território de Nagorno-Karabakh e estabelecer um grande corredor comercial econômico ligando a Turquia ao Azerbaijão através do Naquichevão, um exclave azeri em território armênio.

— O cessar-fogo não foi o ponto final dessa história e os abusos do Azerbaijão continuam mesmo depois de terem conseguido retomar os territórios na região de Nagorno-Karabakh, agora avançando sobre a Armênia — afirma Loureiro. — Boa parte dos prisioneiros de guerra que eles detêm foram capturados após o cessar-fogo, sob a alegação de que estavam em território azeri e por isso foram considerados terroristas. Mas Armênia e Karabakh afirmam que esses soldados foram sequestrados.

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A divergência entre os especialistas ilustra o quadro de tensão e incertezas na região após o cessar-fogo de 9 de novembro, que consolidou os ganhos territoriais obtidos pelo Azerbaijão ao sul e ao norte de Nagorno-Karabakh, incluindo a cidade de Shushi, ou Shusha (como é chamada pelo azeris), a segunda maior de Nagorno-Karabakh e um centro historicamente importante para armênios e azeris.

Em um gesto repleto de simbolismo, Shusha foi alçada ao posto de capital cultural do Azerbaijão após o acordo e, em junho, foi palco de uma visita do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, grande patrocinador da vitória militar azeri em Karabakh no ano passado. Durante a visita, Erdogan ainda assinou uma declaração de cooperação com Baku.

Enquanto isso, o presidente armênio de Nagorno-Karabakh, Arayik Harutyunyan, enfrenta protestos pedindo sua renúncia, após parabenizar o primeiro-ministro interino da Armênia, Nikol Pashinyan, pela vitória que lhe dará um segundo mandato. Pashinyan renunciou e convocar eleições antecipadas em resposta à pressão popular e de opositores, que o acusaram de capitulação na guerra. 

Um soldado dispara um canhão em direção às posições azeris durante os combates em curso entre a Armênia e o Azerbaijão na região separatista de Nagorno-Karabakh Foto: SIPAN GYULUMYAN / AFP - 20/10/2020
Um soldado dispara um canhão em direção às posições azeris durante os combates em curso entre a Armênia e o Azerbaijão na região separatista de Nagorno-Karabakh Foto: SIPAN GYULUMYAN / AFP – 20/10/2020
Um homem caminha entre destroços de prédios atingidos por bombardeios durante o conflito militar entre Armênia e Azerbaijão, em uma área residencial da cidade de Ganja Foto: TOFIK BABAYEV / AFP - 22/10/2020
Um homem caminha entre destroços de prédios atingidos por bombardeios durante o conflito militar entre Armênia e Azerbaijão, em uma área residencial da cidade de Ganja Foto: TOFIK BABAYEV / AFP – 22/10/2020
Helicóptero militar azeris sobrevoa perto da cidade de Terter, Azerbaijão, durante o conflito na região separatista de Nagorno-Karabakh Foto: UMIT BEKTAS / REUTERS - 23/10/2020
Helicóptero militar azeris sobrevoa perto da cidade de Terter, Azerbaijão, durante o conflito na região separatista de Nagorno-Karabakh Foto: UMIT BEKTAS / REUTERS – 23/10/2020
Refugiados da região de Nagorno-Karabakh repousam em suas camas em um centro para refugiados, em Yerevan, após fugir dos combates ferozes Foto: KAREN MINASYAN / AFP - 24/10/2020
Refugiados da região de Nagorno-Karabakh repousam em suas camas em um centro para refugiados, em Yerevan, após fugir dos combates ferozes Foto: KAREN MINASYAN / AFP – 24/10/2020
Família se abriga em esconderijo subterrâneo na cidade de Stepanakert, enquanto persistem os conflitos entre as forças armênias e azerbaijanas Foto: ARIS MESSINIS / AFP - 23/10/2020
Família se abriga em esconderijo subterrâneo na cidade de Stepanakert, enquanto persistem os conflitos entre as forças armênias e azerbaijanas Foto: ARIS MESSINIS / AFP – 23/10/2020
Gerrilheiros voluntários se posicionam em uma vila a sudeste de Stepanakert. O presidente russo, Vladimir Putin, disse esta semana que que número de mortos se aproxima de 5 mil desde os confrontos em grande escala ocorridos no mês passado, no pior surto da disputada região de Nagorno-Karabakh, em mais de duas décadas Foto: ARIS MESSINIS / AFP
Gerrilheiros voluntários se posicionam em uma vila a sudeste de Stepanakert. O presidente russo, Vladimir Putin, disse esta semana que que número de mortos se aproxima de 5 mil desde os confrontos em grande escala ocorridos no mês passado, no pior surto da disputada região de Nagorno-Karabakh, em mais de duas décadas Foto: ARIS MESSINIS / AFP
Voluntário observa em um vale fora de uma aldeia a sudeste de Stepanakert Foto: ARIS MESSINIS / AFP - 23/10/2020
Voluntário observa em um vale fora de uma aldeia a sudeste de Stepanakert Foto: ARIS MESSINIS / AFP – 23/10/2020
Um homem armado com um rifle faz café dentro de um abrigo de uma vila em Nagorno-Karabakh Foto: ARIS MESSINIS / AFP - 23/10/2020
Um homem armado com um rifle faz café dentro de um abrigo de uma vila em Nagorno-Karabakh Foto: ARIS MESSINIS / AFP – 23/10/2020
O primeiro-ministro armênio, Nikol Pashinyan, visita o Hospital Clínico Militar Central do Ministério da Defesa da Armênia, onde soldados feridos durante o conflito militar na região separatista de Nagorno-Karabakh são tratados, em Yerevan, Armênia Foto: ARMENIAN PRIME MINISTER PRESS SE / via REUTERS - 23/10/2020
O primeiro-ministro armênio, Nikol Pashinyan, visita o Hospital Clínico Militar Central do Ministério da Defesa da Armênia, onde soldados feridos durante o conflito militar na região separatista de Nagorno-Karabakh são tratados, em Yerevan, Armênia Foto: ARMENIAN PRIME MINISTER PRESS SE / via REUTERS – 23/10/2020
O primeiro-ministro armênio se reúne com militares feridos nos combates com o Azerbaijão Foto: TIGRAN MEHRABYAN / AFP - 23/10/2020
O primeiro-ministro armênio se reúne com militares feridos nos combates com o Azerbaijão Foto: TIGRAN MEHRABYAN / AFP – 23/10/2020
Rita Khachatryan, 50, cujo marido e filho foram enviados para a linha de frente, fica em um abrigo subterrâneo na cidade de Stepanakert Foto: ARIS MESSINIS / AFP - 23/10/2020
Rita Khachatryan, 50, cujo marido e filho foram enviados para a linha de frente, fica em um abrigo subterrâneo na cidade de Stepanakert Foto: ARIS MESSINIS / AFP – 23/10/2020
Hovhannes Hovsepyan e Mariam Sargsyan, nativos de Nagorno-Karabakh, se casam na Catedral de Ghazanchetsots, na cidade de Shushi, atingida durante um conflito militar na região separatista Foto: NKR InfoCenter/PAN Photo / via REUTERS - 24/10/2020
Hovhannes Hovsepyan e Mariam Sargsyan, nativos de Nagorno-Karabakh, se casam na Catedral de Ghazanchetsots, na cidade de Shushi, atingida durante um conflito militar na região separatista Foto: NKR InfoCenter/PAN Photo / via REUTERS – 24/10/2020
Voluntários e reservistas, que desejam se juntar ao Exército de Defesa de Karabakh para lutar contra as forças do Azerbaijão, participam de um curso de treinamento militar em Yerevan Foto: KAREN MINASYAN / AFP - 22/10/2020
Voluntários e reservistas, que desejam se juntar ao Exército de Defesa de Karabakh para lutar contra as forças do Azerbaijão, participam de um curso de treinamento militar em Yerevan Foto: KAREN MINASYAN / AFP – 22/10/2020
As pessoas recebem pão de graça em uma padaria da cidade de Stepanakert durante o confronto entre a Armênia e o Azerbaijão Foto: ARIS MESSINIS / AFP - 21/10/2020
As pessoas recebem pão de graça em uma padaria da cidade de Stepanakert durante o confronto entre a Armênia e o Azerbaijão Foto: ARIS MESSINIS / AFP – 21/10/2020
O Ministro das Relações Exteriores do Azerbaijão, Jeyhun Bayramov, se reúne com o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, para discutir o conflito em Nagorno-Karabakh, no Departamento de Estado em Washington Foto: HANNAH MCKAY / AFP - 23/10/2020
O Ministro das Relações Exteriores do Azerbaijão, Jeyhun Bayramov, se reúne com o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, para discutir o conflito em Nagorno-Karabakh, no Departamento de Estado em Washington Foto: HANNAH MCKAY / AFP – 23/10/2020

Crise humanitária

Todas essas escaramuças dificultam a retomada da vida normal e futuros esforços de paz na região, aponta o relatório “Perspectivas pós-guerra para Nagorno-Karabakh”, do International Crisis Group. O documento fala em risco de crise humanitária duradoura, com permanente deslocamento de pessoas na região, devido à “falta de recursos de Stepanakert [capital de Karabak] e Ierevan para lidarem sozinhos com o caos pós-guerra”.

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Segundo o relatório do ICG, pesa ainda na falta de um mandato oficial para as forças de paz da Rússia que, como previsto no acordo, foram enviadas à região para cuidar, por cinco anos, da segurança da linha de contato e do Corredor de Lachin, única ligação terrestre entre o território separatista e a Armênia. Sua permanência, porém, depende da concordância dos países envolvidos.

— A escalada do conflito em 2020 causou graves consequências humanitárias. Além dos civis mortos e feridos, infraestruturas essenciais, como escolas, hospitais e vias de comunicação, foram danificadas — disse ao GLOBO Bertrand Lamon, chefe da missão do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) em Nagorno-Karabakh. — Dezenas de milhares de famílias perderam suas casas e tiveram que buscar abrigo em alojamentos ou com amigos e parentes.

Única organização internacional autorizada a operar na região desde os anos 1990, o CICV atuou na primeira fase do pós-guerra, entre janeiro e março, fornecendo refeições individuais e kits de higiene para mais de 23 mil deslocados internos. Desde abril, tem se concentrado na recuperação da população local, distribuindo sementes e ferramentas de plantio para 1.200 famílias em cerca de 70 comunidades rurais e recuperando hospitais, escolas, creches e moradias.

Loureiro acredita que, enquanto o status de Nagorno-Karabakh não for resolvido, não haverá solução para a região. Shiriyev concorda, mas defende que a solução deve ser “profundamente integrada”:

— Uma demarcação clara de fronteiras poderia ter um efeito positivo para uma solução política do conflito em Nagorno-Karabakh e vice-versa.

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