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Tuesday, May 18, 2021

Bruno Astuto: O guarda-costas de Karl Lagerfeld

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Bruno Astuto png Foto: OGlobo



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As derradeiras palavras do Kaiser ficam como uma boa lição: “Para ver como é estúpido ter três Rolls Royces e morrer num quarto podre como esse”.

Karl Lagerfeld detestava falar do passado. Ao longo dos 64 anos de sua carreira brilhante, o estilista nunca permitiu que ninguém realizasse exposições nem sobre sua vida nem sobre seu trabalho, e fazia cara de tédio quando o papo ficava nostálgico. Dizia que, não olhando para trás, evitava copiar os outros e, sobretudo, a si mesmo (“Só me interessa a próxima coleção”). Tampouco nutria qualquer pretensão de ver sua obra parar num museu (“Não faço arte, faço roupas”).

O Kaiser (imperador), como era chamado, abominava qualquer coisa que lhe tirasse a atenção do trabalho — família, conversas amenas, aniversários, Natais. Aparecer com um bolo e velinhas cantando parabéns? Preferia a morte, mas certa vez permitiu que a amiga brasileira Bethy Lagardère, outra avessa a aniversários, lhe preparasse um — sem bolo, claro. Adorava ler as biografias alheias, entre os mais de 300 mil livros que colecionou, mas tinha horror à ideia de escrever suas memórias.

Que ironia: desde a morte de Karl, aos 85 anos em fevereiro de 2019, algumas homenagens foram “cometidas” pelas pessoas mais próximas, a começar pela missa fashion póstuma que foi feita meses depois em Paris (que ele teria detestado) e culminando em diversos livros que têm sido lançados para contar aquilo que ele sempre se recusou a relembrar — de um mais sério, do jornalista alemão Alfons Kaiser, a outro patético, assinado por um de seus ex-modelos preferidos, Baptiste Giabiconi.

Nesta semana, o colaborador mais íntimo do estilista finalmente lançou o seu. Segurança, motorista e faz-tudo do Kaiser ao longo de duas décadas, Sébastien Jondeau, de 45 anos, começou a trabalhar para ele quando tinha 23 e, no final, estava assinando coleções para a marca Karl Lagerfeld e desfilando para a Chanel. Em “Ça va, cher Karl?” (“Tudo bem, querido Karl?”, ainda sem tradução no Brasil), ele descreve como foi sair de um subúrbio desafiador de Paris para participar dos bastidores dos maiores acontecimentos do mundo fashion, convivendo com estrelas do cinema, da moda, da realeza, do mundo empresarial e da cultura, frequentando palácios e viajando em jatinhos.

O preço? Estar disponível 24 horas por dia, sete dias por semana, para um patrão workaholic insone que não confiava sua intimidade a mais ninguém e encontrou, no rapaz, um trabalhador bulímico como ele. To-dos os Natais eram passados a dois — e sem qualquer conotação romântica. Sébastien foi uma das pouquíssimas pessoas que sabiam do câncer de próstata que Karl enfrentou nos últimos quatro anos e foi segurando sua mão que o estilista morreu no hospital. Apesar da indiscrição do pupilo em relação aos detalhes da doença (que o chefe teria também odiado), as derradeiras palavras de Karl ficam como uma boa lição, apesar do humor ferino: “Para ver como é estúpido ter três Rolls Royces e morrer num quarto podre como esse”.

Ao longo desse relato pré-Covid pronto para conquistar os amantes da moda, depreende-se a relação de um chefe que virou meio pai, cujo filho não esquecia que ele era seu chefe — algo difícil de compreender fora do século XVIII. Mágoas, arrependimentos, reclamações trabalhistas? Zero. Apenas uma sensação de ter que reaprender a voltar para casa às sete da noite depois de um dia de trabalho (algo impensável outrora) e, quiçá, inaugurar a própria família. Inteligente, Sébastien verá que a normalidade tem seu charme.

Hoje embaixador mundial da marca Karl Lagerfeld e colaborador da grife italiana Fendi, ele diz que manteve os pés no chão porque nunca abandonou suas origens simples ou seus amigos de infância, “brothers” que levava para conviver com o patrão erudito. Sorte, mérito ou os dois? “Acho que Karl viu que eu era correto, enérgico, ambicioso, mas não oportunista”, diz ele, orgulhoso do papel de primeiro-ministro. No fim, reconhece que, entre as celebridades e os grandes desse mundo que suplicavam pela atenção do Kaiser, este grande gênio solitário o elegeu.

Para também sorte de Karl, Sébastien o elegeu de volta.

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