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Friday, June 18, 2021

Brasil deve ter uma pauta ESG que reflita a realidade socieconômica do país, dizem especialistas

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Em live realizada por Época e pelo jornal O GLOBO, eles afirmaram que a geração de valor deve ser para todos os envolvidos no negócio, não só os acionistas

Em sentido horário: Luciana Rodrigues, editora de Economia; Fabio Alperowitch, sócio fundador da Fama Investimentos; Gabriela Chaves, economista fundadora da NoFront; e Thais Castro, diretora de RH LATAM do PageGroup Foto: Gabriel Monteiro / O Globo
Em sentido horário: Luciana Rodrigues, editora de Economia; Fabio Alperowitch, sócio fundador da Fama Investimentos; Gabriela Chaves, economista fundadora da NoFront; e Thais Castro, diretora de RH LATAM do PageGroup Foto: Gabriel Monteiro / O Globo

A implementação da agenda ambiental, social e de governança (ESG, na sigla em inglês) pelas empresas brasileiras deve se adequar à realidade do país, dando peso a questões como condições de trabalho e desigualdade social, de raça e de gênero, mais latentes no Brasil que em países europeus, por exemplo.

Dessa forma, as corporações poderão fazer uma transição completa de modelo de gestão, visando a uma mudança de paradigma. Uma migração para o chamado “capitalismo de stakeholders”, ou seja, empreendimentos que geram valor para todas as partes envolvidas no negócio, não apenas os acionistas.

Estas foram algumas das principais conclusões da live “Como o conceito ESG impacta o mercado de trabalho e os investimentos”, uma realização do jornal O Globo e da revista Época, com patrocínio da Aegea Saneamento.

O evento ocorreu na tarde desta segunda-feira.Participaram da live Fabio Alperowitch, sócio fundador da  Fama Investimentos, um dos pioneiros na criação de fundos que investem em empresas sustentáveis; Gabriela Chaves, economista fundadora da NoFront, plataforma de educação e empoderamento financeiro; e Thais Castro, diretora de RH LATAM do PageGroup.

A mediação foi da editora de Economia, Luciana Rodrigues, e a live poderá ser acessada no canal de ÉPOCA no YouTube.

“A pauta ESG começou a impactar os brasileiros há um ou dos anos. E a gente está importando tal qual ela é fora do Brasil, sem levar em consideração os nossos problemas” afirma Alperowitch. “Se o ESG  tivesse surgido no Brasil, provavelmente ele teria uma cara completamente diferente”.

Para ele, o debate ESG no país deveria focar em questões que aqui ainda são problemas graves, como o racismo, a desigualdade social e os acidentes de trabalho, mas que já foram mais bem endereçados nos países que iniciaram e avançaram na pauta ESG. Na sua opinião, há um enfoque muito grande à bandeira verde  por aqui:

“Vemos muito forte a pauta ambiental no Brasil. É muito relevante para o mundo inteiro, mas o Brasil também seus próprios problemas. Então, a gente vira, aqui no Brasil, meio ‘carbonocêntrico’ e fica discutindo a emissão de carbono, enquanto o Brasil é o segundo país com mais mortes por acidente de trabalho entre as nações do G20. Este tipo de pauta não está no topo da questão ESG”.

Pressão externa

Alperowitch lembra ainda que o Brasil é um dos países mais homofóbicos, racistas e desiguais do mundo. Há ainda questões como corrupção, que precisam entrar com mais força na agenda. Ele defende uma priorização desses assuntos, sem prejuízo dos demais.

Embora o fundador da Fama tenha apontado que a pandemia gerou um debate sobre a função social das empresas, Gabriela Chaves avalia que a pauta ainda não evoluiu o suficiente e que as pressões externas, como ameaças de embargo a produtos nacionais, terão um peso chave para que a absorção do conceito ESG seja acelerada. Para ela, o país tende a “aprender não pelo amor, mas sim pela dor”.

Um dos principais desafios para a disseminação da pauta ESG no Brasil é o elevado desemprego e a perda de renda.

A economista ressalta que, neste momento, boa parte da população está preocupada com a sobrevivência, vivendo em meio ao “estrangulamento” financeiro e de volta à insegurança alimentar. 

“É importante a gente entender que o Brasil é um país extremamente desigual. Enquanto tem pessoas vivendo uma realidade de consumismo exacerbado, existem pessoas que são privadas das condições mínimas de alimentação, moradia, saúde, vestimenta”, disse.

Desmatamento da Amazônia: cresce número de empresas que promovem ações para preservar a floresta Foto: FLORIAN PLAUCHEUR / AFP
Desmatamento da Amazônia: cresce número de empresas que promovem ações para preservar a floresta Foto: FLORIAN PLAUCHEUR / AFP

Gabriela falou ainda sobre o papel informativo das empresas em relação ao seu público, para dar ferramentas para que eles tomem decisões de consumo conscientes e baseadas nos princípios de ESG. 

“Quando a gente tem uma boa solução, no momento em que a gente empodera as pessoas e compartilha conhecimento, elas vão escolher essa solução. O mercado não deve ter medo de instrumentalizar o seu público consumidor, pelo contrário. A partir do momento em que as pessoas têm mais informações, elas conseguem tomar decisões econômicas melhores”, afirmou.

Impacto na remuneração

Thais Castro, diretora do PageGroup, diz que a cultura corporativa está entrando em uma nova era, mas muitos profissionais ainda não estão capacitados para lidar com os temas ESG. Para ela, é preciso que as empresas ajudem seus gestores a desenvolver essas competências, para que a agenda ESG possa caminhar de forma mais rápida e eficiente:

“Se esses profissionais desenvolverem novas competências, provavelmente a cultura organizacional vai ser muito mais forte. Mas, para isso, é preciso ter reconhecimento e que esses gestores sejam incentivados através da remuneração a exercer esse papel da função social da empresa”, disse.

Para Thais, a transição para uma atitude mais responsável e com propósito das empresas depende de mudanças em sua governança, que ela considera o pilar fundamental da tríade ESG.

“O objetivo não será mais ter o maior lucro possível, mas o maior lucro sustentável. E tudo começa pela última letra da sigla, o ‘G’, que é a governança. A evolução de temas ambientais, sociais e de diversidade não vão acontecer se as instituições de governança das empresas não tiverem o peso e o direcionamento que são necessários para realmente incorporar estes critérios dentro dos valores e práticas das empresas”, afirma.

Consumo X ostentação

Os debatedores concordaram que é falsa a dicotomia entre preservação ambiental e desenvolvimento, lembrando que os negócios que hoje dão melhor retorno são os que se envolvem de forma mais direta na sociedade. E que novas gerações, cada vez mais, se preocupam com os conceitos ESG, sejam como consumidores ou trabalhadores destas empresas.

“Há uma série de exemplos no mundo que mostram que o caminho da inclusão, o caminho da igualdade é um caminho de prosperidade para toda a sociedade”, diz Gabriela.

Ela ainda respondeu também a um questionamento sobre o consumismo e a ostentação na sociedade brasileira. Para a economista, é preciso se questionar por que é considerada ostentação quando o consumo de itens de luxo ocorre em determinados espaços e por certas camadas sociais.

“Se você pensar, os carros de luxo sempre existiram, mas eles se tornam ostentação quando estão na periferia”, provoca.  “E, para essas pessoas, a ostentação aparece quase como uma resposta social, uma necessidade de se afirmar”.

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