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Friday, June 18, 2021

Atacada por Mario Frias, live 'Roda Bixa' abre disputa entre secretário da Cultura e governador do RS

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Ator criticou Eduardo Leite por oferecer as redes sociais do governo gaúcho após evento ser suspenso pela prefeitura de Itajaí (SC); grupo de dez advogados vai defender produtores da live

Nelson Gobbi

17/05/2021 – 19:24
/ Atualizado em 17/05/2021 – 19:25

Arte da live 'Roda Bixa', atacada por Mario Frias em suas redes sociais Foto: Reprodução
Arte da live ‘Roda Bixa’, atacada por Mario Frias em suas redes sociais Foto: Reprodução

Após a prefeitura de Itajaí (SC) cancelar a live “Roda Bixa”, que seria exibida no último sábado, o secretário especial da Cultura, Mario Frias, se envolveu em nova polêmica ao atacar, em suas redes sociais, o governador do Rio Grande do Sul,  Eduardo Leite (PSDB). Frias chamou o governador de “projeto de tiranete” ao criticar a proposta de Leite de transmitir a live nas redes sociais da Secretaria de Cultura gaúcha e das do próprio governo estadual.

No sábado, o governador postou em suas redes sociais a reportagem do GLOBO sobre o tema e escreveu que a “cultura não pode ser dissociada das causas sociais e políticas presentes na sociedade e nas quais sempre foi protagonista, independentemente de questões partidárias”, e que colocaria “as redes de nossa Secretária de Cultura à disposição para a realização do projeto”.

Frias, que já havia parabenizado o prefeito de Itajaí Volnei Morastoni pelo cancelamento da live, escreveu em suas redes que “defender que crianças sejam expostas a temática sexual, com o dinheiro da cultura (…) é o final patético de um governo que persegue e massacra pessoas comuns, em nome da ‘siênssia'”.

A Secretaria de Cultura do Rio Grande do Sul confirmou a oferta aos organizadores da live de sediar a sua transmissão, ressaltando que não há nenhum acerto definido, por ora. A live “Roda Bixa” iria apresentar o podcast “Criança Viada Show”, contemplado com R$ 10 mil da Lei Aldir Blanc através da prefeitura de Itajaí. O podcast deriva do projeto Ações para Reexistir, criado em 2019 pelo ator e diretor teatral Daniel Olivetto, para trabalhar a memória e a resistência LGBTQI+ na sociedade.

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Olivetto conta ter recebido propostas de outros dois estados, além de prefeituras, para transmitir a live, mas que só chegaria a uma decisão após uma reunião, nesta segunda-feira (17),  com um grupo de dez advogados de várias partes do país que se ofereceram para defender os produtores. Os advogados estudam ações judiciais contra os representantes públicos que associaram o evento à sexualização de crianças, já que todos os materiais de divulgação destacavam que seu conteúdo era destinado a adultos.

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— A prefeitura de Itajaí cedeu à pressão de grupos conservadores que sequer tiveram o trabalho de pesquisar sobre o que é o projeto, apenas repetindo o mantra da “defesa da infância”. O projeto fala justamente dos atques que nós, adultos gays, sofremos quando éramos crianças — explica Olivetto. — Todos os produtores e convidados têm experiências de agressões ou bullying na infância, que não gostaríamos de se ver repetir com outras crianças.

Carlos Bolsonaro critica a live

Durante o fim de semana, a live também foi criticada pelo vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos) e pelo secretário de Fomento e Incentivo à Cultura, o ex-policial militar André Porciúncula, que cuida da Lei Rouanet. O filho de Jair Bolsonaro escreveu que “no momento em que esquerda exige os recursos do pagador de impostos para uso da lei rouanet, período de pandemia que impede realização de ‘shows’, sendo uma clara prova de contradição do que dizem exercer, TERCEIRA VIA apoia recursos públicos para ‘peça’ com título CRIANÇA VIADA”. Porciúncula postou que “depois de impedir milhares de trabalhadores da cultura de ganharem seu sustento (…) o governador do RS diz que vai ajudá-los, ao oferecer dinheiro público para um projeto que expõe crianças a conteúdo sexual”.

A repercussão nas redes levou o ator e diretor a fechar sua conta no Instagram, para evitar os ataques virtuais que vem sofrendo desde a última sexta-feira.

— Por conta das falsas acusações de atentar contra a infância, corremos o risco de ter de prestar esclarecimentos ao Conselho Tutelar  —  conta Olivetto. —  Eu ainda trabalho de casa, na maior parte do tempo, mas algumas pessoas envolvidas com o projeto são professores, estão recebendo muita pressão nas escolas em que trabalham.

‘Criança viada’: entenda o termo

O podcast  “Criança Viada Show” utiliza no título um termo criado na internet, sem relação com a sexualização de menores. A expressão vem de um Tumblr criado em 2013 pelo jornalista Iran Giusti, num contexto de humor e ativismo LGBTQI+, onde os próprios participantes incluíam fotos antigas “dando pinta” na infância.

Telas 'Criança viada travesti da lambada' e 'Criança viada deusa das águas', da artista Bia Leite Foto: Reprodução
Telas ‘Criança viada travesti da lambada’ e ‘Criança viada deusa das águas’, da artista Bia Leite Foto: Reprodução

O termo já foi motivo de censura em 2017, quando a série de pinturas “Criança viada”, da artista visual Bia Leite, esteve entre as mais atacadas na mostra “Queermuseu”. Na época, a coletiva foi atacada por grupos como o MBL, o que levou ao seu cancelamento pelo Santander Cultural, em Porto Alegre. Após bem-sucedida campanha de crowdfunding, a “Queermuseu” foi reinaugurada no Parque Lage, no Rio.

Na sexta-feira, a prefeitura de Itajaí informou em seu site que determinou a suspensão da live do projeto cultural Ações Para Reexistir, “bem como a imediata destituição dos membros componentes da comissão local responsável pela seleção dos projetos culturais da (…) Lei de Emergência Cultural Aldir Blanc”. Em vídeo postado em seu perfil no Facebook, o prefeito Volnei Morastoni disse ter determinado a exclusão da live porque a expressão poderia “confrontar dispositivos do Estatuto da Criança e do Adolescente”.

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