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'As pessoas estão cansadas da corrupção dos ricos', diz diretor de 'O tigre branco'

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Ramin Bahrani, americano de origem iraniana, adaptou romance homônio escrito pelo amigo Aravind Adiga, e revela influência de Fernando Meirelles no início de sua carreira

Pedro Willmersdorf

07/02/2021 – 03:30

'O tigre branco' conta a jornada de Balram Hawai (Adarsh Gourav), um pobre jovem indiano que se torna motorista de um herdeiro Foto: Netflix / Divulgação
‘O tigre branco’ conta a jornada de Balram Hawai (Adarsh Gourav), um pobre jovem indiano que se torna motorista de um herdeiro Foto: Netflix / Divulgação

Era 2004 quando o cineasta americano de origem iraniana Ramin Bahrani recebeu um e-mail com o seguinte assunto: “O tigre branco”. O remetente da mensagem era o escritor indiano Aravind Adiga. Os dois se tornaram amigos na Universidade de Columbia, em Nova York, onde estudaram juntos. Desde então, se falam pelo menos duas vezes por semana.

— Era o rascunho de uma história atraente e radical, com um protagonista complexo, engraçado e sarcástico. — relembra Bahrani — Imediatamente respondi dizendo que aquilo deveria ser publicado, pois era fantástico.

Balram Hawai (Adarsh Gourav) é um empreendedor de sucesso em Bangalore, na Índia, com um passado sombrio Foto: Tejinder Singh Khamkha / Netflix
Balram Hawai (Adarsh Gourav) é um empreendedor de sucesso em Bangalore, na Índia, com um passado sombrio Foto: Tejinder Singh Khamkha / Netflix

E assim foi feito quatro anos depois, quando “O tigre branco” chegou às livrarias, sendo aclamado por público e crítica. O romance de Adiga, publicado no Brasil pela Nova Fronteira, se tornou best-seller do New York Times e venceu o Booker Prize de 2008. Agora, finalmente virou filme com roteiro e direção assinados por Bahrani.

Entre o humor e a crueldade

O longa da Netflix narra a jornada de Balram Hawai (Adarsh Gourav), um empreendedor de sucesso em Bangalore, na Índia. Em formato de flashback, acompanhamos seu caminho tortuoso até chegar no topo. Pertencente a uma baixa casta, Balram sai de um miserável vilarejo para se tornar motorista exclusivo de Ashok (Rajkummar Rao), filho de um corrupto empresário local.

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Com o passar do tempo, enquanto a trama avança, também cresce a sede do protagonista por riqueza. E, neste caminho, o roteiro de “O tigre branco” expõe o abismo social indiano enquanto se prenuncia uma escalada sombria na narrativa, marcada por uma sequência trágica envolvendo Balram, Ashok e sua mulher, Pinky (a estrela de Bollywood Priyanka Chopra Jonas).

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— Quando o romance saiu, não achava que seria fácil fazer naquele momento um filme rodado na Índia, com o elenco todo indiano. — analisa Bahrani, destacando o caráter de alcance global que hoje o streaming proporciona — Há quatro anos Aravind me questionou sobre a adaptação e, aí então, disse a ele que era o momento certo. Também já me sentia mais preparado artisticamente, pois este é meu sétimo filme.

Segundo o diretor, acertar o tom foi o maior obstáculo para levar “O tigre branco” das páginas do livro ao set de filmagens. Bahrani se sentiu desafiado, uma vez que a história tem uma primeira metade mais satírica e farsesca, enquanto a segunda parte é repleta de reviravoltas, com um tom sombrio e, muitas vezes, cruel.

Por outro lado, ao expor um claro debate sobre desigualdades sociais e seus densos efeitos, “O tigre branco” consegue atravessar as fronteiras da Índia e dialogar com várias outras realidades. Em certo ponto do filme, Balram dispara: “Promessas eleitorais me ensinaram como é importante não ser pobre numa democracia livre”. Qualquer semelhança com retratos sociais ao sul do Equador não é mera coincidência.

Balram (Adarsh Gourav) vive uma saga marcada pela corrupção, ganância e desigualdade social Foto: Tejinder Singh Khamkha / Netflix
Balram (Adarsh Gourav) vive uma saga marcada pela corrupção, ganância e desigualdade social Foto: Tejinder Singh Khamkha / Netflix

— Em todo o mundo, os trabalhadores mais pobres estão doentes e cansados da corrupção perpetrada pelos ricos. Estas pessoas conhecem suas habilidades, o seu potencial, mas o mundo não as ouve. 

Tal caráter universal da crítica social de “O tigre branco” talvez explique o sucesso do filme, presente na lista de mais vistos da Netflix em vários países, inclusive no Brasil. Mas há também de se dar valor à performance hipnotizante de Adarsh Gourav na pele do protagonista Balram.

O diretor conta que, desde o primeiro dia em que compareceu às filmagens, o ator indiano de 26 anos chamou-lhe atenção, principalmente por sua dedicação.

— É o primeiro protagonista dele, então Adarsh agarrou firme essa oportunidade. Instalou-se anonimamente numa vila por muitas semanas, arrumou emprego numa casa de chás e ficou vivendo à base de gorjetas.

‘Cidade de Deus’ como inspiração

E é justamente o realismo de “O tigre branco” que vem descolando sua imagem de algumas comparações com o pirotécnico e oscarizado “Quem quer ser um milionário?”, de Danny Boyle, e aproximando-o mais do vencedor do Oscar de melhor filme no ano passado, “Parasita”, de Bong Joon-ho.

— Muita gente que não conhece a Índia liga “O tigre branco” a “Quem quer ser um milionário?” por se passarem no país e terem como personagens principais dois rapazes pobres. Já com “Parasita” ele conversa através da história sobre conflitos sociais e também por certa estranheza em sua forma, assim como o filme de Bong Joon-ho.

Ramin Bahrani e Adarsh Gourav, ator que intepreta o protagonista Balram em 'O tigre branco' Foto: Tejinder Singh Khamkha / Netflix
Ramin Bahrani e Adarsh Gourav, ator que intepreta o protagonista Balram em ‘O tigre branco’ Foto: Tejinder Singh Khamkha / Netflix

Fã fervoroso do longa coreano, Bahrani bebeu de fonte brasileira no início de sua carreira. Ele conta que foi “Cidade de Deus” (2002), de Fernando Meirelles, que o inspirou a realizar “Chop shop” (2007). Com passagem por festivais como Cannes, Berlim e Toronto, o filme conta a história de um órfão morador de rua de 12 anos que vive e trabalha em Willets Point, uma área no Queens, em Nova York, repleta de oficinas de automóveis, ferros-velhos e depósitos de lixo.

— Meirelles me enviou uma mensagem elogiando “O tigre branco”, o que significa muito para mim. — diz Bahrani, que, além de fã, se tornou parceiro profissional do diretor brasileiro.

Os dois assinam a produção de “Sócrates” (2018), drama dirigido pelo brasileiro Alex Moratto, que já tratou de recrutar Meirelles e Bahrani novamente para um novo projeto da Netflix.

— Viajei recentemente para gravações em São Paulo, onde fiquei por uma semana. É um filme com o Rodrigo Santoro e protagonizado por Christian Malheiros, que é o ator principal de “Sócrates”. Estreia ainda em 2021.

Para um futuro mais distante, Ramin Bahrani já anunciou que vai se dedicar à adaptação de “Amnesty”, recém-lançado romance do amigo Aravind Adiga. O livro conta a história de um jovem imigrante ilegal do Sri Lanka que deve decidir se relata às autoridades informações cruciais sobre um assassinato —  e, assim sendo, colocar em risco sua permanência na cidade de Sydney, na Austrália.

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