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Sunday, September 26, 2021

Artigo | O amargo profissionalismo do DEM e o doce amadorismo do PSOL

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Sigla de ACM Neto cumpre sua sina e volta a flertar com o governismo; partido de esquerda fez belo protesto contra Bolsonaro, mas não consegue unir oito deputados

Luiz Fernando Vianna

06/02/2021 – 11:34

Rodrigo Maia e ACM Neto em evento do DEM Foto: Givaldo Barbosa/Agência O Globo
Rodrigo Maia e ACM Neto em evento do DEM Foto: Givaldo Barbosa/Agência O Globo

Na quarta 3, na sessão de abertura dos trabalhos legislativos, deputados do PSOL mostraram a Jair Bolsonaro cartazes chamando-o de fascista e genocida, além de pedir “impeachment já!”. Foi pena que parlamentares de outras siglas não tenham feito o mesmo e fortalecido a cena.

Até uma semana antes, porém, a bancada do PSOL, de apenas oito deputados, estava rachada. Quatro queriam o apoio a Baleia Rossi (MDB-SP) na disputa pela presidência da Câmara; quatro defendiam a candidatura independente de Luiza Erundina. Se oito pessoas não conseguem chegar a um consenso, como integrarão uma frente ampla anti-Bolsonaro, sonho que a esquerda diz acalentar?

Esse amadorismo do PSOL é doce por ser correto. É o partido com ideias mais claras hoje. Demora a crescer porque não aceita ditaduras internas nem faz alianças malcheirosas. Mas, se não começar a ceder, não passará de bons homens e mulheres levantando cartazes para um “fascista” e “genocida”.

O avesso do PSOL não é o Centrão, mega-arranjo de mais de 200 parlamentares sempre famintos por verbas e cargos. O DEM seria a outra face, bem mais rechonchuda (29 deputados e nove senadores). Também rachou, e Rodrigo Maia, outrora cacique do partido, sucumbiu às hienas interessadas nas carnes que o candidato vitorioso Arthur Lira (PP-AL) lhes balançou.

O bom resultado nas eleições municipais de 2020 levou os comentaristas a vislumbrar um DEM mais senhor de si, força do centro político, decisivo nas articulações para 2022. Mas o DNA da sigla é adesista. Seu ethos é o da subalternidade. Procede da velha Arena, do PDS, do PFL. Não pôde fazer jus ao seu passado nos 14 anos de PT. Se as portas federais do poder se abriram de novo, como resistir? João Villaverde, em sua coluna no site de ÉPOCA, traçou esse contexto histórico.

Na quinta 4, o profissionalismo do DEM foi resumido na entrevista do presidente do partido, ACM Neto, à “Folha de S. Paulo”. As palavras de governismo escorregadio e em-cima-do-murismo explícito são exemplares. Trata-se de um pragmático, que foi capaz de trair Maia, “amigo de 20 anos” (segundo Neto), e se aproximar de Bolsonaro. O ex-prefeito de Salvador aprendeu muito com o avô, mas este, coronel da melhor cepa, falava mais grosso.

Dois momentos marcantes da entrevista:

“Da mesma forma que lhe afirmo que não temos compromisso com [João] Doria, e nunca tivemos, também devo dizer que jamais nós descartamos essa possibilidade. Não é certo dizer que há compromisso, como não é certo dizer que há veto”.

“Nós não estaremos com os extremos. Você pergunta se eu descarto inteiramente a possibilidade de estar com Bolsonaro. Neste momento não posso fazer isso. Qual Bolsonaro vai ser? Os dos dois últimos anos que passaram? Não queremos. Agora, haverá um reposicionamento?”

O correligionário Luiz Henrique Mandetta, ex-ministro da Saúde, comentou: “Ele não descarta nada, tudo pode ser. É tipo maria-mole, que vai para um lado, vai para outro”.

Depois da repercussão ruim, ACM Neto afirmou que o partido manterá sua independência em relação ao governo. A conferir.

Como já está claro, Bolsonaro fez tudo o que o Centrão queria para eleger Arthur Lira e ganhar um escudo contra os pedidos de impeachment. Mas, diante de profissionais como Lira, Gilberto Kassab (PSD), Waldemar Costa Neto (PL) e agora do DEM, o presidente vai ter que ceder muito mais. E mais. E mais. Não está lidando com gente honesta que levanta cartazes, e sim com gente que cospe mel e come abelha.

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