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Friday, June 18, 2021

Artigo | Lula, o pragmático, está vivo, enquanto antipolítica cai como farsa

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Condições de 2018, quando Bolsonaro se fez de inimigo da ‘velha política’, não resistem à realidade e ficam sem espaço no jogo para 2022

Luiz Fernando Vianna

16/05/2021 – 07:19

Lula organizou encontros em Brasília para reconstruir velhas pontes com partidos como PSD e MDB Foto: Ricardo Stuckert / Lula Institute via Reuters
Lula organizou encontros em Brasília para reconstruir velhas pontes com partidos como PSD e MDB Foto: Ricardo Stuckert / Lula Institute via Reuters

Na política, assim como no futebol, não há espaço que fique vazio por muito tempo. A história da antipolítica, que elegeu Jair Bolsonaro e alguns governadores em 2018, não parece que vá se repetir em 2022 nem como farsa – o que já era há três anos. Para o bem e também para o mal, prevalecendo um ou outro de acordo com a avaliação do freguês, a política tradicional está muito forte de novo.

O exército fisiológico que se abriga sob a alcunha Centrão deixou (e ainda deixa) Bolsonaro arrotar seus golpismos, suas ameaças ao Supremo Tribunal Federal e seus ataques de araque à “velha política” – ele foi deputado por 28 anos. Quando o governo ficou desossado, por causa da incompetência do presidente e de ministros como o da Economia, Paulo Guedes, os negociantes apareceram para preencher o vazio. Os atuais presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), estão à frente de um projeto de governabilidade em parcelas: passam a boiada federal no Congresso aos poucos, em troca de nacos do orçamento.

Desinformados ou praticantes do finjo-que-não-sei, os seguidores caninos de Bolsonaro parecem não registrar casos como o do “orçamento paralelo”. São R$ 18 bilhões franqueados pelo governo a uma casta de parlamentares, que poderão movimentar mais de R$ 1 bilhão cada sem precisar prestar contas de como. É a nova roupa da velha política.

O presidente, que nunca foi equilibrado, vem demonstrando desespero. Ele já devia saber que fisiologismo pode dar alguma governabilidade, mas não compra popularidade. Pesquisa Datafolha apontou que sua gestão tem aprovação de 24%, menos do que os 30% de março e a pior marca desde o início do mandato.

Mais e mais, Bolsonaro e seu Ministério da Saúde vêm sendo reconhecidos como os principais responsáveis pelo morticínio da Covid-19. Como se reeleger tendo nas costas tantos mortos? Em julho já serão 500 mil pessoas, e boa parte delas estaria viva se o governo tivesse começado a comprar vacinas mais cedo e não sabotasse medidas básicas de combate à pandemia. O presidente continua discursando contra as medidas, rejeitando máscaras, provocando aglomerações e receitando remédios ineficazes. Alegra os fanáticos de camisa amarela, mas eles não elegem ou reelegem alguém sozinhos. Com a Lava-Jato desmoralizada e o antipetismo em queda, as condições postas em 2018 dificilmente se repetirão em 2022.

Lula está de volta ao jogo, e ele é um bicho político. Passou 580 dias preso por conta de processos que, hoje se sabe, foram viciados. Tem saboreado a derrocada do ex-juiz Sérgio Moro e do procurador Deltan Dallagnol, mas o desejo de vingança parece não ir além disso. Está conversando com gente que se afastou do PT e de Dilma Rousseff quando viu que o barco estava afundando – e que fará o mesmo se o barco bolsonarista for a pique. Pragmático até não mais poder, caminha para montar uma vasta aliança de centro-esquerda – com Centrão, com tudo – para voltar ao poder.

É absolutamente precipitado afirmar, a um ano e meio da eleição, que isso acontecerá. Mas a pesquisa Datafolha mostrou que, se a disputa acontecesse agora, Lula venceria com facilidade: 41% a 23% contra Bolsonaro no primeiro turno; 55% contra 22% no segundo. A turma que ainda flerta com a antipolítica (Moro, Luciano Huck e mesmo João Dória com seu figurino de empresário bem-sucedido) não dá sinais de que tem gás para enfrentar essa parada dura. Pegar um país em péssima situação econômica e envolto numa mortandade sem precedentes não é para amadores. Ciro Gomes teria coragem, mas não indica ter voto suficiente.

Lula é um personagem complexo, que nada tem de santo. Mas, além da eficiência como animal político, traz boas lembranças para muita gente. Impulsionados pelo alto preço das commodities no mercado internacional, seu governo (2003 a 2010) foi de baixo desemprego, saída do país do mapa da fome, projetos sociais vitoriosos, como o Bolsa Família. Não por acaso, ele continua adorado no Nordeste.

Neste sábado, Bolsonaro chamou Lula de canalha. Já tinha chamado o senador Renan Calheiros (MDB-AL), relator da CPI da Covid, de vagabundo. Esse linguajar pode causar frisson em sua bolha virtual, mas não o torna um administrador competente nem um presidente capaz de reeleger. Para o bem e também para o mal, como dito acima, a política está dando as cartas. Isso significa negócios escusos, mas também um tanto de civilidade e aceitação das regras democráticas.

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