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Monday, September 27, 2021

A partir de selos postados, livro reconstrói histórias de países extintos que duraram de meio século a apenas alguns dias

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Em ‘Lugar nenhum — Um atlas de países que deixaram de existir’, arquiteto norueguês Bjørn Berge conta casos de ambição por poder, fanatismo e ideologias

Bolívar Torres

02/08/2021 – 04:30

Selo de Inini, à esquerda,(1931-1946), país com território duas vezes maior do que a Bélgica, tinha apenas três mil habitantes; à direita, selo do Kasai do Sul (1960-1962), que, após disputas por seus minerais, foi reincorporado à República do Congo Foto: Reprodução
Selo de Inini, à esquerda,(1931-1946), país com território duas vezes maior do que a Bélgica, tinha apenas três mil habitantes; à direita, selo do Kasai do Sul (1960-1962), que, após disputas por seus minerais, foi reincorporado à República do Congo Foto: Reprodução

Os 50 territórios presentes em “Lugar nenhum — Um atlas de países que deixaram de existir” têm em comum exatamente o que o título do livro indica. Alguns duraram meio século. Outros, apenas alguns dias. Todos, porém, viveram o suficiente para emitir selos — uma prova inequívoca de suas passagens pelo mundo, segundo o autor do atlas, o arquiteto norueguês Bjørn Berge. Fato curioso: o nome da editora brasileira da obra, Rua do Sabão, também homenageia um extinto endereço do Centro do Rio, que já foi cantado por Manoel Bandeira.

Retirados da coleção pessoal de Bjørn, os documentos postais servem de matéria-prima para reconstruir a trajetória dos ex-territórios. Há nomes que soam familiares, como o Estado Livre de Orange, enquanto outros são obscuros e enigmáticos, como Tannu Tuva e Cabo Juby.

Se selos costumam apresentar uma versão oficial e embelezada dos estados que representam, Bjørn a contrasta com os relatos menos engrandecedores de testemunhas (viajantes, historiadores, poetas) e outros elementos como músicas e receitas culinárias. O resultado são histórias de extinção que dizem muito sobre nosso tempo.

— As histórias desses países são contos sobre ambição por poder, fanatismo e ideologias — diz o autor. — Sobre terrorismo, refugiados e luta por recursos. Sobre todos os Trumps, os Erdogans, os Putins e outros governantes de mentalidade parecida. Tudo indica que, nós humanos, não somos muito complicados e nos repetimos sempre.

Extinto pela peste

Quase todas essas nações foram marcadas por tumulto, violência e mortes. Muitas nasceram de conflitos, como a Carélia Oriental, que durou apenas algumas semanas durante a Guerra Soviético-Finlandesa de 1922. Não faltam exemplos melancólicos no atlas. As Índias Ocidentais Dinamarquesas eram ilhas em liquidação cujas doenças tropicais mataram 169 dos 190 primeiros colonos a chegar por lá. Antes de virar Tasmânia, a Terra de Van Diemen (1803-1856) foi uma colônia penal que dizimou cangurus e aborígenes em seu território. Produziu um selo em que a rainha Vitória aparece com semblante de pavor — expressão “de todo condizente com a má fama do lugar”, avalia o autor.

Selo da Tripolitânia (1922-1934): Primeira república árabe, já registrou a temperatura mais alta da Terra Foto: Reprodução
Selo da Tripolitânia (1922-1934): Primeira república árabe, já registrou a temperatura mais alta da Terra Foto: Reprodução

— Esses países perdidos, em sua grande maioria, não tiveram uma existência tímida ou filantrópica — lembra Bjørn. — Eles ocorrem no extremo oposto da escala, como assertivos, violentos e, às vezes, altamente neuróticos.

A geografia não é sempre uma aliada. Comprada pelos franceses por apenas 230 quilos de prata, Obok ficava em um território africano castigado pelo deserto. O poeta Arthur Rimbaud se instalou por lá em 1885 para traficar armas. E odiou. “A gentinha da administração francesa só se ocupa de realizar banquetes e beber à custa do dinheiro do governo”, escreveu.

A própria produção dos selos desses países traz suas curiosidades. Os emitidos pelo estado principesco de Bhopal, que existiu na Índia no final do século XIX, nasciam de um método artesanal único. A perfuração do papel era toda feita à mão, com agulha em lotes de dez folhas por vez. E o trabalho era realizado no castelo, sob a supervisão da princesa em pessoa. Para muitos países, emitir selos servia como uma declaração de sua suposta importância e estabilidade. O estado de Yafa fazia mesmo sem possuir um sistema postal. Justamente para sentir em suas mãos a jornada dessas relíquias, Bjørn só coleciona selos que já foram postados.

Livro
Livro “‘Lugar nenhum — Um atlas de países que deixaram de existir”, editora Rua do Sabão Foto: Divulgação

— Com seu desgaste, seu cheiro e sua sujeira, eles carregam vestígios autênticos do povo de uma época há muito desaparecida — diz ele. — Nas trilhas desordenadas que se formam, podemos ler qualquer coisa, desde o humor diário até o ciúme e distrações ao longo do caminho. Podemos sentir a conversa de fofoca que vai e até mesmo uma xícara de chá que vira. O selo constitui uma presença intensa.

Bjørn é daqueles que sentem nostalgia daquilo que não viveu (“o desejo de aventura independe de tempo e espaço”, diz). Entre os países do livro, ele gostaria de ter morado na Zona Internacional de Tânger (1923–1956), ainda que por uma mistura de curiosidade e horror. Organizado com o mínimo de intervenção do estado, sem sistema tributário e punições legais que só se aplicavam a crimes mais graves, o território virou ponto de encontro de escritores beats americanos. O romancista William Burroughs experimentou por lá uma rotina de drogas pesadas e sexo com estranhos nos anos 1950, que inspirou alguns de seus textos mais famosos.

— Não havia absolutamente nenhuma rede de segurança para as necessidades sociais e de saúde. Essa brutalidade obviamente não poderia durar para sempre — observa Bjørn, que, além de selos, coleciona destroços que a maré arrasta para a praia próxima de casa.

Sua relíquia favorita é uma lata de metal inscrita com letras do alfabeto hudum (escrita tradicional mongol). O autor a mantém lacrada e garante que ela só será aberta no seu “leito de morte”.

— As cores em amarelo-limão, azul e verde com letras prateadas podem indicar que se trata de um refrigerante e não de algo que contenha álcool — diz o arquiteto. — Nesse caso, provavelmente já estará podre, mas ainda tenho fé em algo paradisíaco.

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