20.8 C
Peru
Sunday, May 16, 2021

A nova vida de Trump: rixas com atores, um julgamento no horizonte e dinheiro, muito dinheiro

Must read



Exclusivo para Assinantes

Ex-presidente americano vive na Flórida excepcionalmente tranquilo sem Twitter, mas sem perder seu jeito brigão

Amanda Mars, de El País

09/02/2021 – 07:00

Donald Trump joga golfe no Trump National Golf Club em Sterling, Virgínia Foto: JOSHUA ROBERTS / Reuters/15-11-2020
Donald Trump joga golfe no Trump National Golf Club em Sterling, Virgínia Foto: JOSHUA ROBERTS / Reuters/15-11-2020

WASHINGTON — Por anos, Donald Trump personificou a imagem do jovem tubarão de Manhattan dos anos 1980 e 1990, um ambicioso construtor que queria encher a cidade de arranha-céus com o seu nome, um conquistador do Studio 54 e de outros clubes da época, um personagem de “A Fogueira das Vaidades”. Hoje, aos 74 anos, depois de deixar a Casa Branca, se tornou um daqueles aposentados ricos da Flórida, para onde transferiu sua residência fiscal para economizar impostos e onde mantém a mansão de Mar-a-Lago, seu refúgio favorito durante sua conturbada Presidência. De lá, ele aguarda o julgamento de impeachment que começa nesta terça-feira no Senado. Ele é acusado de incitar seus apoiadores a invadir o Capitólio, no dia 6 de janeiro, em um ataque que deixou cinco mortos e abalou o cenário político do país.

Impeachment:Com chances mínimas de condenar Trump, democratas apostam em associar republicano à violência

O novo Trump não tuita mais, expulso como está das redes sociais, mas joga golfe, prepara sua defesa para o impeachment, criou um gabinete pós-presidencial e acumula dinheiro, muito dinheiro, em doações políticas. Ele se afastou de Washington, mas não da multidão enlouquecida, que faz parte de seu DNA.

Trump continua pronto para perder a linha e investir contra qualquer afronta, longe daquele tipo de Olimpo magnânimo em que os líderes políticos se instalam depois da Casa Branca. Como exemplo, vale o ressentimento da carta com a qual, na última quinta-feira, se retirou do maior sindicato de atores dos Estados Unidos, a organização SAG-AFTRA, que o havia advertido após o assalto ao Capitólio.

Ajuda interna:Depois de ataque ao Capitólio, laços de congressistas com grupos extremistas começam a ser investigados

“Embora eu não conheça o trabalho dela”, o republicano começa sua carta dirigida à presidente do sindicato, Gabrielle Carteris, que interpretou Andrea na série “Barrados no baile”, “me sinto muito orgulhoso do meu trabalho em filmes como “Esqueceram de mim 2”, “Zoolander” e “Wall Street: O dinheiro nunca dorme”; bem como em programas de televisão como “Um maluco no pedaço”, “Saturday night life” e, claro, um dos programas de maior êxito na história, “O aprendiz”, para citar alguns.

Na carta, Trump também credita a si próprio a criação de milhares de empregos em redes de televisão a cabo e “mídia mentirosa” como a CNN, diz ele, referindo-se às poderosas audiências que costumava gerar, e ataca Carteris pela gestão da organização, culpando-a pela greve no setor, e a acusa de “falhas disciplinares”. “Você não fez nada por mim”, conclui.

EUA:Veja os principais passos do segundo julgamento de impeachment de Donald Trump no Senado

A carta foi enviada do novo escritório que Trump abriu com a tarefa de “fazer avançar os interesses dos Estados Unidos e seguir adiante com a agenda” de seu governo. O ex-gerente de campanha de Trump, Brad Parscale, criou um novo sistema de distribuição de correspondências através de uma de suas empresas para os comunicados do ex-presidente porque sua infraestrutura de campanha para 2020 foi suspensa pelo provedor que estava usando, Campaign Monitor, conforme publicado pela Bloomberg, citando fontes familiarizadas com a decisão.

Os presidentes dos EUA, ao saírem da Casa Branca, se dedicam a polir sua figura — criam uma fundação, muitas vezes em torno de uma biblioteca presidencial — e mergulham de cabeça na velha arte de ganhar dinheiro, algo que lhes foi vetado quando estavam no cargo. As conferências de Barack Obama são negociadas a preço de ouro, e o contrato para suas memórias e as de sua mulher, Michelle Obama, alcançou números estonteantes (US$ 65 milhões). Outros ex-presidentes, como Bill Clinton e Ronald Reagan, também fizeram do mundo das palestras um bom negócio.

Resta saber se Trump, que já chegou rico a Washington, voltará a liderar seu conglomerado imobiliário e hoteleiro, cuja gestão — mas não a propriedade — ele deixou nas mãos de seus filhos para evitar conflitos de interesse. Ele tem sido bom em arrecadar fundos depois que sua presidência chegou ao fim. Entre novembro e dezembro, inflando as acusações infundadas de fraude eleitoral, obteve doações no valor de US$ 250 milhões, dos quais US$ 10 milhões, segundo dados da Comissão Eleitoral Federal, serviram para custear o litígio.

Boa parte dos recursos foi para o novo comitê de ação política (entidades que servem para apoiar candidatos e não estão sujeitas a limites de valores) chamado Save America (Salve os EUA, em português), que o republicano criou após as eleições, em 18 de novembro, e que visa custear suas atividades políticas após deixar a Casa Branca. De acordo com dados publicados pelo New York Times na semana passada, esse comitê tinha US$ 31 milhões em conta no final do ano e cerca de US$ 40 milhões a mais esperando para serem transferidos de outra conta compartilhada com o partido.

O que Trump vai fazer com todo esse dinheiro? Há poucas semanas, rumores de que ele planejava criar um terceiro partido — que roubaria os votos dos republicanos — se espalharam pela mídia e pelas redes sociais, mas assessores do ex-presidente negaram pouco depois. Por enquanto, o comitê Save America já anunciou seu apoio a candidatos leais ao trumpismo, como a ex-porta-voz da Casa Branca Sara Huckabee Sanders, que concorreu q governadora do Arkansas. Trump, por sua vez, tem se esforçado para transmitir a mensagem de que se vê como um candidato plausível nas eleições presidenciais de 2024 — algo que o Partido Republicano não gosta, pois quer virar a página e começar a pensar no futuro, seja com um candidato à imagem e semelhança de Trump ou com um conservador tradicional.

Os democratas buscam com o impeachment desqualificar Trump como candidato em 2024. Ele enfrenta a acusação de incitamento à insurreição. Um voto de culpa no Senado não implicaria um veto automático a cargos eleitos, mas implicaria uma votação paralela para iwwo. O veredicto de condenação requer o apoio de 67 dos 100 senadores, o que significa que 17 republicanos devem romper com o sentimento da maioria de seu partido e votar com os democratas. Estão previstas algumas deserções, como as dez ocorridas na Câmara dos Deputados (primeira fase desse processo), mas os números seriam insuficientes para a condenação.

Alguns conservadores argumentam que julgar um presidente que já está fora da Casa Branca é inconstitucional, mesmo que ele tenha cometido a suposta falta durante o mandato e as acusações tenham sido aprovadas com ele ainda na Casa Branca. Outros simplesmente acreditam que Trump não tem responsabilidade. Seus advogados usam ambos os argumentos.7

O magnata permanecerá em silêncio, como aconselharam seus advogados, apesar dos democratas terem pedido que testemunhasse. É que o republicano não tem papas na língua. E, além disso, tem outros processos no horizonte.

More articles

- Advertisement -

Latest article