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Monday, August 2, 2021

'A balada de Narayama' (1983) e a condição humana

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Um momento de crise revela muito do mundo em que vivemos. Com o início da pandemia, alguns gestores públicos não apresentaram pudores ao insinuar o sacrifício dos mais velhos como inevitável e houve até quem lembrasse o impacto positivo sobre as contas da Previdência.Ao tropeçar nessas discussões, lembrei de “A balada de Narayama”. E que boa surpresa descobrir que o filme está disponível no streaming, na plataforma Belas Artes à la carte, que, por sinal, apresenta uma das melhores seleções de clássicos e filmes de arte disponíveis no Brasil.

Uma lenda diz que, em um tempo distante, em alguma região do Japão rural, era costume deixar os velhos no cume de uma montanha para que morressem. Shohei Imamura apresenta um pequeno povoado, próximo à montanha de Narayama, onde esta prática pretensamente aconteceu.

A mãe do camponês Tatsuhei se aproxima dos setenta anos e se prepara para seu momento de despedida. No povoado em que vive, a fome é grande e exige sacrifícios. Uma boca a menos para alimentar é um alívio, mas Tatsuhei, o chefe da família, não consegue esconder a tristeza pela morte da mãe que se aproxima. Não se conforma em deixá-la no cume da montanha.Desconfia dos costumes de seu povo, mas sabe que não pode romper com a tradição. A velha aceita com resignação o destino que lhe é reservado, pois acredita que será acolhida pelos deuses de Narayama.

Shohei Imamura é o cineasta do instinto. Em seus filmes aflora a animalidade do indivíduo em seus desejos e escolhas. Busca, no extremo da pobreza, o que aproxima o homem dos bichos. Assim, ele representa a natureza do humano em sua relação com o sexo, com a fome e com a violência. É comum em sua obra as comparações diretas entre pessoas e animais, como demonstram os títulos de alguns dos seus trabalhos mais conhecidos: “Todos porcos” e “A mulher inseto”. Em “A balada de Narayama” Imamura radicaliza essas comparações, explicitando a mesma condição dos comportamentos dos habitantes do pequeno povoado e da vida selvagem que os cerca.

 Mas esses homens bichos, esfomeados e cruéis, são humanos, demasiadamente humanos, em seus afetos e em seu lirismo. Não há cinismo em Imamura. Se os homens fazem suas escolhas, este arbítrio é limitado pelas condições objetivas da vida material. Se o diretor apresenta a sobrevivência e o sexo como instintivos, se as regras morais são construções sociais, há sentimentos que são do homem e só dele: o amor, a lealdade, o sonho. Há poesia em Imamura, mas sempre seca e contida: é uma poesia que ecoa de um pequeno gesto, de um olhar, de um movimento. E do destino comum dos homens, dos bichos e das bestas ele avista a existência:no fim todos morremos, e não há explicação para o mistério.

Na maioria dos filmes do diretor, os espaços não são os da metrópole, mas do meio rural e das cidades pequenas, onde a vida é mais dura e as estruturas que regem a vida social são facilmente identificáveis. Se Imamura é um cineasta eminentemente moderno em sua forma de ver o mundo, caminha, no entanto, distante das representações de tédio e hipocrisia da sociedade urbana de seu tempo. São outras as preocupações existenciais que movem o seu cinema: mesmo afirmando-se como alheio ao cinema político, seus filmes são profundamente materialistas e explicitam a violência da desigualdade. A maioria de seus personagens estão na base da pirâmide social.

Na crueza com que representa a sobrevivência dos mais pobres, um olhar solidário e inconformado se impõe. Na feição bruta de suas histórias há uma forma de apontar para si mesmo e para a humanidade e enunciar figuradamente, como em um sopro: “eu os acuso”. Seu cinema remete à melhor tradição da literatura naturalista do século XIX, seja pela  sua visão aberta e sem pudor da sexualidade e do instinto, seja pela forma como constrói o homem como fruto de seu meio social e material.

Mas, ao falar do passado, Imamura mira o presente e a incômoda permanência da miséria e da fome. O bem e o mal habitam todos os seres, e é a vida em sua condição objetiva que acaba por se impor. Em meio a essa dureza, há em seus filmes sempre espaço para o humor. Um estranho e incômodo riso, que surge de situações abjetas e atrozes. Seus personagens lidam com a contradição entre escolhas sensatas, instintos e sentimentos, e quase sempre não escolhem os caminhos que lhe ditam a razão.

O universo de sua obra é construído com rigor, equilibrando o narrador impassivo e o formalista zeloso, atento aos menores gestos e movimentos de seus personagens. É preciso dizer que esse rigor esteve presente desde seus primeiros trabalhos, embora sua obsessão pelo instinto tenha aflorado a partir de “Todos porcos” (1963) e principalmente “A mulher inseto”(1964).A partir de então, a dialética de seus personagens entre a razão e o instinto, entre a moral e as pulsões, entre as ambições e as possibilidades, tornou-se o centro de seus filmes.

Narayama é uma adaptação da primeira novela do celebrado escritor japonês Shichiro Fukazawa, que caiu em desgraça nos anos 1960 após escrever um conto satírico sobre a família imperial. A partir deste momento passou a ser perseguido pela extrema direita de seu país. O filme de Imamura não foi a primeira adaptação da obra: em 1958, Keisuke Kinoshita filmara sua versão para a história.

É interessante comparar os dois filmes. No primeiro, de Kinoshita, a narrativa é conduzida pela música, que narra a história. O cenário é todo construído em estúdio, acentuando a natureza fabular e o artificialismo calculado das paisagens e seus belos efeitos de luz. A poesia em Kinoshita emerge de sua estilização e do uso narrativo da canção. Assim como o livro que originou o filme, publicado dois anos antes, era uma crítica ao Japão submisso às tradições imperiais, no espírito do pós-Segunda Guerra Mundial.

A obra de Imamura é o oposto. Não há espaço para artificialismo. Sua poesia emerge da dureza e da miséria. Da humanidade que insiste em sobreviver diante da fome. A natureza é violenta, não há nenhuma visão idílica. A música, menos do que narração, é um comentário sobre as situações, ao estilo de uma improvisação popular.

Imamura fascinou toda uma geração de cineastas e cinéfilos brasileiros, principalmente paulistanos. Carlos Reichenbach era um dos que apontavam uma paixão especial por seu cinema e mais de uma vez o citou como uma de suas grandes referências. A forte presença da imigração japonesa em São Paulo tornou Imamura popular entre os cinéfilos. Muitos filmes japoneses eram exibidos na cidade, gerando uma crescente curiosidade por esta que é uma das mais interessantes e inventivas cinematografias do mundo.

Muitos diretores nipônicos já eram conhecidos em São Paulo antes de serem descobertos pelos festivais e críticos europeus. Jairo Ferreira, importante crítico que iniciou sua atividade nos anos 1960, escrevia no São Paulo Shinbum, jornal da colônia japonesa, fundado em 1946, que circulou em versão impressa até o final de 2018. Ali ele refletia tanto sobre filmes japoneses como brasileiros.

Em 1967, Jairo já mostrava em seus textos familiaridade com a obra do mestre japonês: “Imamura não apela para a comiseração de ninguém. Compreende o mecanismo e não teme as digressões. O irracionalismo passa pelo crivo do racionalismo e transmuta-se em pureza cristalina” (algumas críticas que Jairo Ferreira realizou para este jornal foram reunidas pelo pesquisador Alessandro Gamo no livro “Críticas de invenção: os anos do São Paulo Shimbun e pode ser baixado na íntegra pelo link:https://aplauso.imprensaoficial.com.br/livro-interna.php?iEdicaoID=219).

Se por aqui Imamura já era celebrado como gênio desde os anos 1960, foi só em 1983, com “A balada de Narayama”, que ele recebeu o reconhecimento europeu, sendo laureado com a Palma de Ouro em Cannes. Até então, o único festival europeu que dera alguma atenção à seus filmes fora Berlim, que exibira dois de seus filmes nos anos de 1960 e 1964.

Seria importante que algum canal de streaming ou festival de cinema fizesse uma retrospectiva completa de Imamura, para que as novas gerações pudessem conhecer a obra deste que é um dos grandes mestres do cinema japonês. Há muitos anos, em 1997, a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo exibiu alguns de seus filmes ficcionais e em 2014 o Festival É Tudo Verdade apresentou seis de seus documentários. Mas, salvo engano, uma visão mais completa de sua obra nunca foi apresentada no Brasil.

Por enquanto, resta ao público brasileiro contentar-se com seu único filme disponível no streaming, esta obra prima que é “A balada de Narayama”. Fecho este texto citando novamente Jairo Ferreira, com suas palavras precisas sobre o diretor: “Imamura é um campeão no jogo da dialética. Em sua visão não há limitações. Se não existe saída objetiva, Imamura compreende pela imaginação. É o conflito dos porcos com os deuses. Apenas conta a energia que comanda a sobrevivência. Imamura tem os pés em terra firme. É um desmistificador. Seus personagens dão o máximo e não alcançam o mínimo. É a condição humana. É a chama que não se apaga. São as cinzas fornecendo energia para uma nova abertura, onde o pesadelo será dilacerado, o absurdo elucidado, o cotidiano compreendido”.

“A balada de Narayama” (1983), de Shohei Imamura

Em cartaz no Belas Artes a la Carte https://www.belasartesalacarte.com.br

* Thiago B. Mendonça é crítico de cinema, diretor e cineasta.

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